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Vânia Falcão | 1986


Encontro 
Vânia Falcão

Porque levar ao fundo
esse instante
Só o delírio cura
e quando suspenso perdura como um susto

Não vás ao fundo
Alice caiu num poço
encontrou o coelho

louco

(Amenas Inferências, p. 72)

A obra de Liana Timm produz sobre mim um fascínio permanente. Uma inquietude e uma sensação comovida. Provavelmente a Liana surpreendeu em mim, sem que nunca houvesse entre nós palavras explícitas, esse encantamento. E imagino que seja por isso que eu esteja aqui nesse momento neste encontro.

O trabalho sedutor de Liana atrai pela diversidade, já que ela se move com igual habilidade e qualidade pelo campo da arquitetura, das artes plásticas, da literatura. E necessário lembrar que falaremos sobre uma certa Liana Timm, a artista que absorvo e re-construo neste momento. Portanto, para compartilharmos essa reflexão faz-se necessário realizar um recorte e escolher alguns aspectos que possam ser focalizados. Escolhi como ponto de partida o poema Encontro, que faz parte de Amenas Inferências.

Considero-o o possível eixo paradigmático que estabelece a confluência da obra plástica com a literária. Encontro pode ser o momento em que começa a se desvelar a urdidura da obra. E como todos sabemos a urdidura é o esteio, é a base de um trabalho de tapeçaria, por exemplo. Fixemo-nos no texto . (Reler o poema). Ao retomarmos o texto, dele retiramos inicialmente as palavras fundo e instante que trazem topoi e cronos à nossa at enção, numa conjunção que Bakhtine chamou de cronotopo.

Fundo: o fundo do poço, buraco fundo – profundidade
fundo do prato- fundo versus borda
fundo das águas – fundo versus superfície
fundo da alma – essência, intimidade
pano de fundo

Instante: fragmento, recorte no tempo, tempo determinado, fixo.

O fundo do tempo é o passado, a memória, a memória disseminadora.
O instante, embora fixo, pode também ser disseminador, pode ser dividido, ampliado.
Trazendo as experiências do fundo eu enriqueço o presente e crio, ou sonho, um futuro.
Mas o que buscar no íntimo ? Como perceber essas experiências já acontecidas ao trazê-las para o agora, nesse instante? Certamente não o conseguiremos fazer como aconteceram originalmente.Elas serão recriadas. E isso ocorre ao sobrevir o delírio.

O delírio perturba, incita, inquieta; altera o real, desorganiza e, portanto, assusta. O quadro, o poema, são o resultado do delírio, da desorganiz ação e reorganização das noções de tempo e espaço e da localização do ser nesse tempo e espaço.

Reler o poema.

À indagação Por que se responde com um surpreendente e ambíguo não. Não vás ao fundo, não abandones o instante e o espaço presentes, lembra-te de um “outro” que já realizou esta ação num passado e não foi bem sucedido:

Não vás ao fundo
Alice caiu num poço
e encontrou o coelho

louco

Contudo ao trazer Alice, Alice de AIice\\\’s Adventures in Wonderf and & Through the Looking Glass (1832) do autor inglês Lewis Carrol, ao seu poema, agora um intertexto, a poe ta mostra, de uma forma irônica e bem-humorada, uma saída possível, O sonho, a imaginação, a conseqüente liberdade para abandonar o mundo real do espaço e tempo em busca de outra organização é que produzem a arte. Mas para que a arte aconteça é preciso a coragem de abandonar-se ao sonho e de permitir que a desorganização, a loucura se instaure. A Alice de Lewis Carroll, ao finalizar a queda pelo túnel estava intacta: Alice was not a bit hurt (p.29). O País da maravilhas, das surpresas pressupõe um mundo alterado, às avessas, de cabeça para baixo, onde “Todos os dias são dias do seu des-aniversário”, como disse a Lebre ( March hare)

Creio que esse poema Encontro é emblemático do significado do fazer artístico na obra de Liana. Mas ele é apenas um início. Esse conceito de criação amplia-se, estende-se a outros poemas. Veja-se Voadouro (Amenas Inferências, p.73).

Fecha-se o corpo
O cordão do pacote é nó cego
abafa o pensamento na palavra
Cai-se de joelhos
aspirando a morte
instantânea do comício
Abre-se o sonho
concebendo leves rondas
de um sangue
que nem em cor mais se projeta

Fecha-se o corpo – abre-se o sonho . O corpo é nossa representação espacial, visível. Mas ele como uma construção arquitetural, como uma casa, tem um dentro e um fora. O mundo absorvido pelo corpo, pelos sentidos, fecha-se para que as experiências sejam curtidas, transfiguradas, sonhadas. Abandona-se o real, os fatos ditos verdadeiros, históricos, por que eles talvez não existam, como parece ficar explícito em Olho perdido (p. 63).

A caixa abandonada
guarda o olho do rei
- Rei morto na Revolução -
Curiosos olham o olho
no centro da mesa
E vem um, outro
e tantos mais
De repente o grito
- Os reis nunca existiram!
Os olhos sempre foram dos ratos

Além de abandonar-se o real abandona-se o histórico, como em Regras (p,59). A Paralítica visão do mundo; o mundo que se vê do alto dos zigurates é contemplado de forma impassível:

Paralítica visão de mundo
Ilusão mascava de desejos
no preparo da alimentação crua

Minha Vênus é oração inconfessa
por quilômetros quilômetros
de afrescos

Arando tentáculos
acordo a fúria das divindades
e no alto dos zigurates
ladainha de monstros
reverenciam-se

De perfil
abro os olhos como esfinge
contemplando impassível a humanidade

Conto minotauros noites noites
A insônia procura hedonismos
escondida na rigidez das suturas
no mistério dos sorrisos

O pé direito avança antes
na predi leção aos difíceis
labirintos da alma

Por que? Porque esse mundo deve ser alterado, mas não perdido: Conto minotauros noites noites. A tradição expressa em Conto ovelhas , forma tão comum, transforma-se em Conto minotauros. O mesmo repete-se, mas de forma inovadora.

Assim, há um avanço:
O pé direito avança antes
na predileção aos difíceis labirintos
da alma. (p.59)

Mas avança transitando:
do sensato ao absurdo
do absurdo ao sensato
através do entre de um e outro
(Receita para quem não tem pressa, p.55)

Da superfície, do exterior, do fora, se transita para o fundo, o interior, o íntimo. E é desse momento intervalar que resulta a obra. Há um afastamento do contato com o mundo. Mundo que apresenta seus perigos e é portanto aterrorizante. Como encontramos em Depósito Arrombado – a ida ao fundo pode fazer com que se encontre o Iodo:

Como o desejo
a cor encrespa em doída aspereza
a pigmentação e células mortas
do pseudo esquecimento
Peixes passam
a centímetro do lodo
sem abalar o latente estopim
de um dia que talvez nem exista

Ninguém sabe o que acontece nos oceanos
É surpresa o movimento das águas
a atingir as algas entocadas
no profundo fundo do eu

(p.74)

Em Amenas Inferências encontra-se a poeta preocupada com o seu espaço, o espaço do corpo, o espaço interior e ao mesmo tempo com o grande Mistério:

Engraçado;
se olha para fora do corpo!

(P79)

Assim, depois de (na capa de Amenas Inferências) retirar a redoma de vidro que resguarda a cabeça da mulher, para que ela possa ouvir o zumbido do mundo, passa-se a olhar este mundo exterior no qual não há dúvida de que o ser está inserido.

Este é o gancho para iniciarmos breves comentários sobre a obra plástica de Liana.



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