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Texto e pesquisa de Lopes de Veiga


Liana (mãe, esposa, arquiteta, pintora, professora universitária e principalmente mulher) está poetisa novamente

Ninguém sabe ao certo o que está havendo com a poesia. Há os que dizem que ela é necessária, mas devem ser muito poucos, porque no mundo inteiro a poesia não vende. Lewis Nielsen, crítico americano, diz que a tiragem média nos Estados Unidos é de apenas mil exemplares e que apenas 100 são postos à venda. Os demais são distribuídos entre os amigos, os críticos e os professores de literatura. “É uma insanidade falar em poesia americana”, diz ele. Na Itália, as coisas não são melhores, e Umberto Eco ironiza: “Fazer poesia é viver cercado pela admiração de uma dúzia de amigos”. Na França, os críticos dizem que a poesia vai bem, mas os editor es não concordam com isso. Prova esmagadora: nenhum poeta francês conseguiu vender 500 exemplares no ano passado. Die Welt, encerrou o assunto: “A poesia está morta”. Mas os críticos russos falam que a poesia está mais viva do que nunca e dizem que o último livro de Evtuchenko vendeu num ano 300 mil exemplares. Enquanto isso, no Brasil, se teima. Apesar das prateleiras cheias, dos depósitos repletos, há sempre, todos os anos, um grupo de destemid os que consegue imprimir seus versos e enfrentar a impossibilidade.

Não importa onde
Importa é o fremido
das palavras
repartidas
na cadência
É o coração
ator doado
invariante
querendo
praticar gemidos

Esta é a voz de Liana Timm, que este ano se junta aos teimosos com o livro Estados Empíricos, sua terceira incursão no Reino das Impossibilidades. A primeira foi em 86, com Amenas Inferências, seguida por uma estranha Elegia a Pedras Altas, e que no ano passado andou pelas mansas águas da Lagoa com os versos de Faróis da Solidão. Isso sem falar, é claro, de sua coluna no nosso RS, onde, para nosso espanto, ela se mantém extremamente bem-comportada.

Se tu não estás bem, o teu trabalho também não está bem. Porque tu ficas emaranhado nos teus problemas pessoais. Eu acho que o teu saldo tem que ser maior. Tem que passar por cima de tudo isso.

Liana é surpreendente. Quem olha para seus olhos azuis não adivinha seu sangue árabe nem imagina que essa mulher alegre e esguia seja mãe de três filhos (pela ordem de dedicatória, Carolina, Antônio e Samantha), esposa do Edgar Timm e, muito menos, que tenha nascido tão cedo, num lugar insólito chamado Serafina Corrêa, de onde veio sem a menor pretensão artística para Porto Alegre, com apenas três anos de idade.

Incluo nessa vida 
uma miséria
uma pobreza enraizada
em pratos e serpentes

Há porões e escadas na infância, da qual ela não fala, mas que espreita em todos os versos. No modo de Liana rir e falar, sempre agitando as mãos bem feitas, se adivinha, no entanto, que foi uma menina bem-comportada que só trazia bons boletins para casa.

Comecei a fazer versos com treze anos. Acho que foi por aí que me senti poeta e comecei a ler poesia por influência dos professores. Na mesma época tive também um contato muito estreito com as artes plásticas. Foram dois canais de comunicação que se abriram para mim na adolescência.

Ela não diz, mas, nos primeiros anos, o pincel foi bem mais forte que o lápis. Ou, melhor dizendo, a régua foi mais forte do que tudo, porque a moça de Serafina Corrêa foi tirar Arquitetura, uma profissão que, apesar de todas as suas negativas, está bem distante da poesia. Não contente em imaginar casas e pontes, Liana pintava e ganhava os primeiros respeitos nesta mui difícil e ciumenta Porto Alegre.

É pena, vou ter que
desfazer o encantamento.
Ninguém consegue por
todo o sempre ser
Ninguém é.

Liana tem uns modos de pantera. Ouve as perguntas meninamente, mas logo, lá no fundo dos olhos enganosos, há uma chispa e ela curva o dorso. Mas não há o bote, porque Liana só morde no imaginário. Cá fora ela é extremamente simpática e espantosamente pacífica. Mas, mesmo quando se enrodilha e se põe a ronronar palavras agradáveis, há em toda ela uma promessa de garras que trai a inquietação que vai por dentro.

O importante é quando a gente faz as coisas com verdade. Existe um caminho a percorrer dentro da nossa realidade, como se ele já estivesse embutido dentro da gente. Eu me sinto completamente à vontade trabalhando com as palavras e com as imagens, porque elas fazem parte da minha história pessoal.

Em 1969, a arquiteta esqueceu os arcos e as pontes e passou a pesquisar as linguagens bi e tridimensionais.

Mas não fujam porque a poesia é bidimensional, e todas as esculturas, mesmo as ruins, são vendidas em três dimensões. Portanto, a moça continuava dentro de sua especialidade. Mas já começava a chamar a atenção, tanto que foi convidada para lecionar na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal. Dez anos depois começava a estudar a palavra.

Onde estamos? Em
Qualquer? Em
Jamais? Em Nuncamais?
Estamos em Ferida.

Mas ela absolutamente não parece angustiada. Quando anda com os filhos, está sempre em revoada, e quando desce com eles o morro de entrada do RS, sempre se tem a impressão que irá levantar vôo com as crianças piando atrás, fazer uma grande curva pelo rio e rumar para a sua casa no Cristal.

Não uso o meu trabalho para ficar melhor comigo mesma. Eu tenho que estar num certo equilíbrio para poder vasculhar mais fundo dentro de mim mesma, numa zona que eu não conheço.

Aqui uma lacuna terrível que deverá ser sanada no próximo livro. Era preciso ouvir os alunos de Liana. Saber se ela brinca em aula, se conta piadas, se se irrita, se não gosta de ser interrompida. Porque há em Liana essa tranquilidade imperdoável de quem está fazendo e trabalhando no que gosta. Ela começa a falar de seu livro, não do momento em que escreveu o primeiro verso, mas do instante em que imaginou a capa ou escolheu os tipos para a composição.

Não me sinto disponível
para reuniões
extraordinárias.
A palavra
no seu estado natural
já me basta

Atrás de mim, o Fernando Pessoa arruma os óculos e ri: O poeta é um fingidor, avisa. As poetisas não são exceção. Mas Liana não gosta da palavra. Não recusa, mas não gosta. Essa professora de Expressão Gráfica (não, senhoras, corporal é outra coisa) diz que a sua poesia é de indivíduo e não de mulher. Embora, evidentemente, tenha que concordar que traz as características do seu sexo. Mas ela ri quando se fala em feminismo, nega que seja e termina perguntando: O que é feminismo?

Não me perguntem sobre 
coisas
sou rígida flexível
Nem sobre filosofia
sou tudo e pouco
sou tudo junto
às vezes me deparo flor folha

Por que o brasileiro não lê poesia? Discutimos e terminamos no chavão. O problema é da educação. Mas Liana acredita que existem bons poetas e vai citando Adélia Prado, João Cabral de Melo Neto, Ana Cristina César, Mario Quintana, Nejar, Trevisan, Afonso Romano de Santana, Gilberto Mendonça Teles. Mas ela acha que os maiores poetas brasileiros são os letristas da música popular. E diz séria que os sambas-enredo são pura poesia feita pelo povo. Mas isso não resolve o problema dos demais poetas que continuam pateticamente na prateleira.

Acontece que a poesia é exigente. Ela necessita de uma disponibilidade que às vezes as pessoas não têm. Porque um poema não se apreende, nem se compreende no primeiro momento. Ler poesia não é pegar um livro e ler do princípio ao fim. A poesia é um momento. Tu paras na frente da estante, retiras o livro. De repente tu o retomas e relês o poema. Acho que é quase como uma relação amorosa.

Há um ano e meio que Liana trabalha no livro. Nesse trabalha há qualquer coisa braçal, a sala fica cheia de sons de martelo e formão. Mas nem todos os poemas são de 86 ou 87. Há também no meio deles versos muito antigos que estavam na gaveta. Mas nada de imaginar improvisações com essa senhora de longos braços. Essas gavetas devem ter sido abertas e fechadas várias vezes até que a decisão final foi tomada.

Nem todos são dignos do
mistério
de serem habitados pelo
mistério

Vender? Sim, senhores, nem todos esses anos de Brasil, nem todas as viagens ao exterior acabaram com as esperanças da poetisa. Primeiro, é claro, hão de comprar os amigos ( e pelo modo como ela fala, se adivinha que tem muitos). Depois (ela ri divertida) público em geral.

Estamos numa fase de transição. Todas as coisas estão se transformando e nós estamos dentro dessa transformação. Por isso não podemos avaliar corretamente a sua extensão.

Mas ela aceita o risco. Põe na mesa o seu jogo. Um livro lindo, que começa a ser gostoso pela capa, na qual a família Timm, como sempre, se divertiu trabalhando. Haverá uma festa no lançamento, uma montagem teatral e o abraço inevitável dos amigos. Mas a verdadeira festa irá começar depois, naquele momento mágico em que o leitor retirar o livro da prateleira para reler o poema.

Mas não se morre. 
Se ultrapassa
Gosto de ultrapassar, pois
do alto entendo
mais as borboletas

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Maio de 1989



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