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Tania Maria Galli Fonseca | 2001


UMA EXPOSIÇÃO E CINCO VISUALIDADES. Não seriam quinhentas?
Tania Maria Galli Fonseca

Quando recebi o convite de Liana para compor esta mesa, surpreendi-me com a rapidez com que o aceitei. Minha resposta derivada com certeza da alegria que o mesmo me proporcionava. Meu percurso pelas temáticas da subjetividade e do tempo tem instigado reflexões em tomo de campos heterogêneos do conhecimento, como é o caso da arte. A preocupação em elucidar a situação da subjetividade e do que é feito de sua dimensão criativa nos dias de hoje, aliada à questão de como a criação pode ser investida de uma singular força de transformação, tem me feito invocar a arte, como um modo exemplar de busca de estratégias para o pensamento e para ação.
A arte comparece, pois, em meu percurso, como uma espécie de deriva, na qual busco construir uma linha de fuga disciplinar que não consiste, como se poderia supor, em fugir da vida e do real. Ao contrário, trata-se de produzir vida, produzir real e, no dizer de Deleuze (1977), “de achar uma arma.
A exposição de Liana Timm – desde o título SOUL IN TRANSIT, à sua proposta de “ir-se dando” através de sucessivas “visualidades”, misturas e deslocamentos espaço-temporais, afetou-me como expressão sensível de um pensamento voltado para o heterogêneo e suas manifestações de diferença. Pareceu-me mesmo que Liana impunha-se, como artista, a condição ambígua de provocação à ação e de coragem de mostrar-se em movimento. Uma posição em que o que importa não é propriamente o acabamento e a saciedade, e sim a capacidade de fazer durar a obra como um acontecimento a ser recriado e repercutido. A arte não se dando no mesmo lugar da identidade do artista, seduzindo mesmo para metamorfoses propondo-se a fazer como um tipo de máquina estética engendradora de um tempo em que os efeitos não se esgotam no momento da sede, mas vão repercutir mais além, e em seguida, muito depois.
Liana nos propõe, com UMA EXPOSIÇÃO E CINCO VISUALIDADES, uma espécie de tableaux vivant, suporte de linguagens que prendem o observador numa relação duradoura de fruição. Uma obra incompleta não porque Lhe falte um final que seria preciso lhe fornecer. Incompleta, inacabada, por não se esgotar no momento de sua aparição, por não se dar de uma vez por todas. Uma obra habitada pelo tempo, suscetível de fazer florescer tendências imanentes, cujo desenvolvimento a lançam num processo de maturação, cujo o sentido não é colocado em um suposto sequenciamento linear crescente e cumulativo, e sim em sua capacidade de diferir de si mesma, fazendo existir múltiplas traduç ões, ativando tendências, ressonâncias, impulsionada para fora, na direção de suas diferenças. Uma pós-vida da própria obra de arte, que enlaça autor e espectador no impasse de se verem colocados diante de passagens, situados no meio das coisas, incapazes de redescobrir origens e de anunciar finais ou finalidades. Um verdadeiro movimento contra o tempo que passa; um movimento a favor da conservação de um tempo que permanece e faz durar, preserva o potente, não se deixando consumir num presente raso. Um tempo que faz retornar a diferença., produzindo, no caso da presente mostra, “visualidades” outras, da artista e dos espectadores da obra, cujos olhares se colocam como produção criativa, recriação de mundos e de sentidos. A obra de Liana “se dando”, “se desenvolvendo” enquanto se mostra, formalizando-se durante o ato, poderia ser pensada como um grande espelho cujas imagens refletidas nunca são idênticas a si mesmas, diferindo no tempo e nos olhares dos sujeitos.
A proposta de Liana coloca a nu um processo de criação que vai descobrindo novas intensidades sob a densidade de sua primeira face, revelando operações de diferenciação, que recolocam as imagens num registro novo e inusitado. Poder-se-ia pensar que, ao incitar a ser recriada, a arte formula-se como vontade de potência, potência plástica, de metamorfose, de criação, de paixão pela diferença e pelo diferenciar-se. A obra, concebida como efeito do ato criativo, supõe, aqui, o artista como aquele que vai construir as linhas de fratura para dar passagem às virtualidades que se encontram inscritas nas profundidades de sua superfície. A criação, como operação subjetiva do artista, parece presa a “uma paixão de confessar, que ela não estanca, revelando-se como repetição de tentativas de liberação, que, ao ser promovida à categoria de obra do espírito, revela-se movida por uma espécie de “bafo carnal”, “pensamento mudo e subterrâneo \’obtusa carne da Natureza “, “jorros de sangue”, “a própria vida”, do que jamais o sujeito se purificará. Poder-se-ia dizer como Blanchot: “Sacudamos a poeira das palavras, nos sacudamos todo, e tombara do ferimento do tempo, uma pepita ensangüentada \’. Debaixo da consciência e da memória, este ferimento não cessará jamais de sangrar.
Trata-se, pois, de apontar que o ato criativo não pertence à ordem da representação, não se colocando no lugar de algo já dado, e tampouco mostrando-se passível de vir a ser escancarado à visão, permitindo-se deixar a ver de uma vez por todas, consumido, devorado, esgotado, finalmente capturado! Alojando-se no plano da experiência e do fazer, implicado em uma dobra subjetiva, cuja interioridade nada mais é do que a inflexão do mundo constituída desde a inseparabilidade dentro-fora, interior-exterior, sujeito-sociedade, manifestando-se como um pensamento enraizado no corpo, habitado por insistentes fantasmas, que d esviam as formas, desformalizam e desestabilizam as configurações dadas para dar passagem ao estranhamento e à uma repetição de algo não sabido, não escutado e não visível, sempre outro, sempre diferente. Mundo-subjetividade, o dentro se constituindo como uma envergadura do fora, o fora como uma multiplicidade de perfis projetados de dentro. Criação como processo de realização da realidade , nunca vista como um todo finito dotado de essências preexistentes, causas primeiras e últimas. Criação como produção de um real complexo, em incessante realização/produção. Real não regido por transcendências externas, composto de possíveis, impossíveis, virtuais e atuais. Real que não se inscreve na
eternidade, não se mostra imóvel e fixado em referências identitárias, cuja \’medula\’ é o devir e cujo ser se nutre da permanência do movimento e da mudança. Real como incessante work in progress, sou! in transit, nunca acabado, finalizado, totalizado. Regido pela regra rizomática do n-1, mostra-se como rede na qual imbricam-se e bifurcam-se inúmeras linhas, tecem-se infinitas possibilidades de configurações e conexões. Tecido em uma rede de múltiplos tempos, de ressonâncias, acopladora do humano e do inumano, agenciadora de virtualidades que desterritorializam as formalizações, que lida sempre com o estado de fluxos e a possibilidade de fazer o sentido emergir para produzir “essa lenta superposição de camadas finas e translúcidas das t raduções sucessivas,,8.
A noção de processo criador pode também nos levar a pensar na provisoriedade das formas e dos sentidos, apontando-nos para uma espécie de desnaturalização do real, tomado, assim, como efeito das condições e regimes que presidem a sua realização. Não há realidade pronta, dada, decifrada. Todo o real é criado, sendo produto da invenção humana. Tornar conhecido o real, ou seja, fazê-lo existir, implica em situar a própria experiência do conhecimento como algo que, embora circunstanciado por um modo de olhar, efeito de regimes de verdade, sempre se mostra incapaz de dizer , mostrar e significar tudo. No conhecido, perdura o desconhecido, na revelação, sempre algo se esconde, na claridade produzem-se sombras. Conhecer como operação também de invenção, mostra-se como efeito de agenciamentos ou arranjos concretos de elementos heterogêneos, (de linguagem, de poder, formas sociais, etc.) que ao mesmo tempo que criam e estabilizam certas formas/idéias num dado meio, mostram-se suscetíveis de deixar-se perturbar por elementos de alguma zona incerta que as pode desestabilizar e deformar. O já conhecido, assim, se vê sacudido por forças deformantes, vê-se sempre confrontado com seu próprio devir que, para florescer e existir, deve, muitas vezes, rasgá-lo.
Em Clarice Lispector, pode-se encontrar algo que diz desta dificuldade do conhecido poder vir a expressar o que desconhece. Diz ela: “Não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espalhados “. (…)” a realidade antecede a voz que a procura… A realidade é matéria prima, a linguagem é o modo de buscá-la (..) A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando lá/lia a construção, é que obtenho o que dela não consegui. (..) só posso alcançar a despersonalização da mudez se eu antes tiver construído uma voz”.
Neste sentido, pode-se pensar, por exemplo em Maria Callas, como uma cantora que se mostrou capaz de fazer recuar a marca autoral para dar lugar a cada um de seus personagens, revelando que a sua capacidade de despersonalização, como artista, tornou-se ao mesmo tempo a grande objetivação de si mesma. Callas colocou seu canto como uma espécie de operador das passagens e dos devires, lugar de expressão dos murmúrios incessantes de uma potência plástica e metamorfoseante, sensibilizada mais pelo esquecimento do que pelas lembranças de um passado identitário e representacional. Callas desdobra seu corpo cantante em um sem-número de vozes, pois, ao invés de representar seus personagens, tornava-se cada um deles, transmutando-se em cada uma das múltiplas expressões afetivas.. Por isso, o maestro Nicola Rescigno, um de seus colaboradores, afirmou: “Callas foi freqüentemente acusada de ter três vozes Absurdo! Ela tinha trezentas. Cada papel que desempenhava tinha uma voz especial, e dentro daquele timbre particular ela constantemente transmutava as cores para passar a mensagem do compositor. (…)Vocês lerão neste livro que sofrimentos ela enfrentava para enfatizar uma palavra ou mesmo uma sílaba (…) Ela construía cuidadosamente cada um de seus personagens sobre a característica principal da personalidade deles, não da sua.
Se é verdade que criar é sempre criar um futuro, também nos deixa a pensar a idéia de que todo o nascimento implica no aparecimento de um outro, outro que é sempre outra coisa do que aquilo que queremos antecipar, porque está muito sempre muito além do que sabemos ou do que queremos ou do que esperamos. O nascimento não nos coloca em continuidade com o que nasce. Na verdade, é o que interrompe toda a cronologia, instante de absoluta descontinuidade, da possibilidade de que algo que não sabemos e que não nos pertence inaugure um novo início, O nascimento, a criação, a recriação implicam, portanto, a aparição de algo no qual nós não podemos nos reconhecer a nós mesmos. O tempo está aberto a novos começos; à aparição de algo novo, que o mundo e nós próprios devemos ser capazes de receber, ainda que para tal tenhamos de nos colocar em questão.



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