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Tania Mara Galli Fonseca | 2010


A ALEGRIA DA INFLUÊNCIA

Palavraria, 02/dezembro/2010

Seria necessário iniciar dizendo do paradoxo que esse encontro produz. Levei algum tempo para entendê-lo, pois, seria certo pensá-lo através da pergunta de como poderíamos vir falar da alegria da influência senão como um processo de mão dupla? Como poderíamos colher alegria, se não estivéssemos , desde já, mergulhados no encontro com aquele outro que nos anima? Assim, falar da alegria da influência, já se interpõe como caso de reciprocidade, sob pena de tornar-se sua existência inútil e vazia. Não há amor não correspondido quando a influência faz parte da alegria. 
Falo, pois, dessa evolução de dois seres em encontro, de uma espécie de evolução a-paralela, da qual cada um extrai do outro intensidades para perseverar na sua existência. Mais do que perseverar em um sentido do direito natural tal como o da árvore que, de modo espontâneo, busca o seu sol e sua água para viver, nesse caso, entre humanos, tratar-se-ia daquilo que eu designaria como um encontro ético, fundado na seleção e na possibilidade de escolha. 
Encontrar Liana Timm em meu caminho foi um longo processo do tempo. Vizinhamos em muitos lugares da vida, na academia e em outros espaços, e fomos entendendo nossas afinidades, ou seja, que elas se produziram como que advindas daquele olhar de admiração e gosto de estarmos perto. Liana não é minha parente, não foi minha amiga de infância, sequer estudamos juntas, mas, em dado momento, como se tivéssemos dado tempo ao tempo, descobrimo-nos, lado a lado, e arriscamos conversas, convites recíprocos, em um vai-e-vem de encontros que dançaram em nossas cabeças e em nossos corações. Tecíamos, então, através de nossa prática existencial, uma trama viva, um plano comum de convivência no qual emaranharam-se os fios de cada uma de nós. Hoje, Liana e eu recebemos essa história, não linear e não contínua, como a história de nossa amizade. 
Qual teria sido o critério de nossa escolha recíproca? Difícil explicar suas razões. Mas, gostaria de pensar que escolhemos um amigo ou uma amiga quando entendemos que não podemos suportar sozinhos o mundo. Sempre é um quando que nos move nesse ato: quando queremos uma espécie de inspiração constante, quando queremos alguém que, como nós, também sofre, padece e fracassa mas não cai no relativismo e tampouco no nihilismo, alguém que sustenta ideais imanentes ao possível da realidade; quando queremos, enfim, saber-nos em companhia de quem resista frente ao que lhe acontece. Precisamos de amigos nos quais nos espelhemos, não naquilo que somos e que já podemos, mas exatamente naquilo que gostaríamos de perseguir. É pontual nossa escolha, sem, contudo, ser racional. Esta se dá pelos caminhos dos afetos alegres que se produzem quando podemos fazer um par. 
Quando escolhemos um amigo ou uma amiga, queremos alguém que não fale exclusivamente em nome de seu próprio EU, que saiba, assim, emitir uma linguagem na quarta pessoa do singular que reverbere em nós os afetos de qualquer um. Queremos alguém que seja mundo, que faça mundo e também que tenha a coragem de destruir mundos. Não falo, pois, de uma amizade mantida à custa de uma fusão simbiótica, como uma espécie de duplo grudado àquilo que somos. Falo de uma amizade que seja potente para nos arrancar do tédio, da mesmice, e que, também seja capaz de estar presente na sustentação de nossas experimentações , quando as vertigens nos tomam em uma mistura de poder e de impotência, quando sentimos o limite de nossas insuficiências. Aqui, a amizade não produz o apagamento dos termos: ela se bifurca para ambos os lados, retornando para cada um aquilo que cada termo permite deixar passar. Amizade-travessia que se traduz como função vital que embaralha o rosto do outro no nosso próprio, mesmo que saibamos discernir as distinções e as fronteiras. Núpcias feitas de relâmpagos entre corpos díspares, em distância um do outro, cujas afecções se dão em um triz dos encontros e que nunca podem ter a troca como medida. Na amizade, há uma incondicional receptividade, algo que se passa entre corpos do modo de uma necessidade, de um arrebatamento. Um amigo nem sempre é o nosso semelhante. Pode ser aquele que nos cause estranhamento e desassossegos, uma amizade que nos desafie para além de nós próprios e que nos empurre para o devir antes do que para o passado. Nesse sentido, houve alguém que teria dito que “o melhor amigo é o nosso pior inimigo”, uma vez que, nessa conjunção, se propiciam os sismos e a proteção em nossa vidinha pequena. Em uma amizade dessa natureza, não se exige a perfeição, apenas há um curvamento para tornar melhor a existência, dentro de seus possíveis. 
Temos dito, cada vez mais, que os amigos são raros. E devem sê-lo. Pois não os encontramos nas ruas como pedras rolando nas quais tropeçamos. Uma amizade é uma produção, é exercício de mim no outro e do outro em mim, é via de duas mãos, assemelhada àquela existente entre o beija-flor e a flor. Seres heterogêneos se encontram. Algo entre eles se passa, produzem-se efeitos recíprocos e, nesse processo sem simetria, acontece a possibilidade de fazer durar ambas respectivas existências. Assim, destituída dos padrões morais, a amizade torna-se espaço também de combate com o outro e consigo próprio. É nela que nos damos a conhecer em relação àquilo que podemos e que desejamos. Mais do que uma imagem especular, podemos ver no outro nossa imagem invertida, estamos lá, do outro lado do espelho, tornamo-nos aquele que desconhecemos, relançamo-nos em uma outra imagem, deixamos de ser o que éramos, diferimos de nós próprios. A amizade, em seu sentido forte, opera como nossa exterioridade, como aquilo que nos empurra para o que nos queremos tornar, como algo que nos faz sair de nós em direção ao imperceptível que está sob os nossos olhos. Sua influência chega-nos sem ruídos, é contínua e opera como um abraço quente em dias de frio. Faz-se como transformação silenciosa. Esta influência tratar-se-ia, nas palavras de François Jullien, de “um afloramento que não vemos chegar”. Nesta amizade, no seu sentido forte, não haveria palavras de ordem, nem pregações e tampouco falatório instrutivo. Apenas, aconteceriam encontros convenientes à expansão de nossas forças, expansão que nos infunde amor ao mundo, que nos torna não apenas passivos padecentes. Quando temos condições para esse tipo de amizade, resulta que nos sentimos ativos, porque viemos, então, saber daquilo que nosso corpo pode para afetar o outro. O efeito da alegria nos invade devido à essa consciência daquilo que podemos. E sendo ético o nosso critério, evidentemente, ele estaria ligado ao fato de naquela relação de amizade estamos nos preservando e ao outro naquilo que temos de melhor e de singular. Uma amizade para nos fazer responder às perguntas que nossa natureza nos impõe. 
A ética da amizade não se espelha num bem ou num mal transcendentes, metafísicos. Ela é local, situada, corporal, funciona como passagem de forças entre corpos e só poderá ser discernida a partir de seus efeitos alegres ou tristes. Saímos alegres de um encontro quando não padecemos de servidão e de obediência; tornamo-nos alegres quando nossos encontros nos infundem amor à vida, ao mundo e a nós mesmos. Quando acreditamos que somos capazes de sermos amados e de amar, quando identificamos em nós próprios uma capacidade de afetar ativamente o mundo com nossa vitalidade; quando, enfim, descobrimos que fomos nós próprios que possibilitamos ao outro que nos amasse e que essa potência de nos fazer amados, nos pertence. Naquele encontro, tal potência se fez ato e acontecimento. 
Uma amizade, como a que tenho com Liana Timm, poderia ser chamada de medicina, pois ela ultrapassa os cânones da sociabilidade instituída e podemos vê-la como uma espécie de clínica de nós próprios. Clinamen é o nome dado por Lucrécio para significar desvio dos átomos para possibilitar a mudança no universo. Assim, nesta relação de amizade também nos desviamos do amigo, fazemos nossa conversa com ele, mas executamos um clinamen em relação a ele. Algo dele permanece em nós e nós prosseguimos na direção de instigar algo que é da ordem da diferença. Clinamen é um termo do qual deriva clínica e que contém a enunciação das possibilidades de fazer desviar para a criação aqueles elementos repetitivos que incessantemente prescrevem seu eterno retorno em nós. A clínica da amizade, a amizade como clínica e como medicina, somente se faz possível através dessa imbricação e dessa apropriação poética, em que a autoria de um Eu se perde nos domínios da influência.
Torna-se evidente, aqui, que já elevamos o plano da influência a um nível completamente distinto daquele em que a amizade muitas vezes pode ser vista como acobertamento e fusionamento, amizade como peso da dependência entre dois, como servidão e obediência. 
Gostaria, pois, de vir a declarar esse modo de ser amiga de Liana Timm. Tudo o que vinha falando a respeito, certamente se enquadra naquilo que nos concerne. Temos sido felizes em nossas conjunções. Alegres, acima de tudo e, como duas borboletas, nos aproximamos uma da outra como uma de nossas flores preferidas, nos tocamos afetivamente e cada uma alça seu vôo, após, tendo em vista um imenso céu recém aberto, uma espécie de infinito que nos espera para novas realizações, juntas ou separadas, mas que acreditamos como possíveis.
À querida Liana, à muito querida Liana, eu agradeço imensamente ter-me citado como uma de suas influências para alegria. Nada mais poderia eu fazer senão, da mesma forma, retribuir a citação: Liana, você é uma das pessoas que torna alegre o meu viver. E isso não tem preço. 
Muito obrigada, tgf

 

Texto apresentado por ocasião do evento PALAVRA – ALEGRIA DA INFLUÊNCIA, promovido pelo Jornal Vaia, em parceria com a Livraria Palavraria/Porto Alegre/RS, em 02 de outubro de 2010. O evento contou com a presença de Tania Mara Galli Fonseca e Armindo Trevisan acompanhados da anfitriã do encontro Liana Timm.



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