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Psicanálise e campos da cultura: Literatura e arte


INTRODUÇÃO

O tema deste encontro, por ser abrangente, proporciona muitas escolhas. Isso é bom e nos oferece várias alternativas para o recorte da fala. Nesse processo remexemos com um decantado repertório, há muito não objetivado. E o reavivamos através do resgate das emoções perdidas e inanimadas.


Num primeiro momento, passou-me pela cabeça trabalhar questões comuns aos dois campos focalizados aqui: Psicanálise e Cultura.

Talvez eu não fuja deste projeto. Mas não o farei pela via explicita. Aliás esta não é uma das minhas mais fortes características. Meu lugar é o das metáforas. Diariamente mexo, valorizo, crio metáforas.

Tanto na literatura, quanto nas artes visuais, busco em primeiro lugar a valorização da linguagem, a sofisticação da linguagem. Ela nos capacita tentar, o que Leonardo da Vinci buscava no longínquo séc. XV: dizer o indizível, exprimir o inexprimível, traduzir o intraduzível. E mais: ela nos capacita atingir outros patamares que não os da lógica nem da razão.
E é aqui, salvo me provem o contrário onde encontro a mai rica confluência entre estes dois campos de expressão e de conhecimento. Ambos, através da curiosidade, buscam a transcendência, ou seja, querem ir mais além do que é objetivo e palpável.


Como artista, o fundamental será sempre o processo do fazer. Depois, mas muito depois, o processo de fruição, este já totalmente separado da figura do fazedor.
Este impulso ao acionar emoções básicas, mecanismos de respostas, capacidade perceptiva, potencial intelectual, processos sensórios, memória, temperamento, origina um objeto, um fato, um acontecimento artístico. A partir do momento em que a tensão provocada pela necessidade de criar relaxa, e o equilíbrio se estabelece, estamos novamente em condições de olhar o entorno.

Logo, é sincero dizer que o artista faz o que faz, sem se importar com o interlocutor, mas é extremamente verdadeiro também afirmar que o artista, depois de exaurir o processo criativo, tem a expectativa de ser compreendido, aceito, digerido, apreciado pelo maior número possível de pessoas.

Estes dois momentos – cotidianos na vida de qualquer artista – são completamente diferentes. Envolvem atitudes diferentes, relacionamentos diferentes, raciocínios e emoções diferentes.

Estas questões suscitam reflexão e uma postura, senão totalmente definida, mas pelo menos dirigida a um objetivo claro que direcione a ação do artista dentro da sociedade em que vive. Schiller (séc XVIII) em sua nona carta publicada no Livro A educação o estética do homem diz: O artista é, decerto, o filho de sua época, mas ai dele se for também seu discípulo ou até seu favorito. E continua: “Mas como o artista se resguarda das corrupções de sua época, que o envolvem por todos os lados? Desprezando o seu juízo. Deve elevar os olhos para a sua dignidade e lei, não os baixar para a felicidade e a necessidade”.

Ilustro essa afirmação com um exemplo. Há dez anos, mais precisamente em 1990, a grande escritora brasileira Hilda Hilst, resolve dar adeus à literatura séria e escreve o primeiro livro pornográfico de sua carreira intitulado O caderno rosa de Lori Lamby. Hilda justifica esta atitude radical como uma tentativa de vender mais e assim conquistar o reconhecimento do público. 
Isto causa grande indignação no meio cultural brasileiro. Afirmavam que a escritora tinha se prostituído.

Mas a intenção de Hilda não foi totalmente atingida. Apesar de ter se proposto a fazer concessões tanto ao mercado quanto à própria linguagem, e haver explorado o chamamento pornográfico na mídia, os livros não venderam tanto quanto o imaginado. Ela sim ficou bastante conhecida do grande público.
E por que isso? 
É que bem no fundo, no invisível do texto, persistia a qualidade intrínseca de sua literatura, plena de luzes, valores e marcas inovadoras. 
Um crítico aponta que mesmo tentando, Hilda não consegue produzir má literatura nem literatura de apelação.

Ao me lembrar desta passagem da vida da escritora, resolvi pegar da estante o Caderno de Literatura Brasileira dedicado a ela. Encontrei seu endereço eletrônico. Parei tudo e entrei no site. Claro, fiz uma leitura em diagonal mas pincei um trecho que quero me referir aqui.
Hilda, hoje com 70 anos, vive isolada na fazenda da família A casa do Sol, há 11 km de Campinas com 90 cachorros. Não entendendo muito bem o que é um site, externa ao escritor Yuri Santos a preocupação de ser descoberta pelos leitores, através do site. Yuri então explica que o endereço eletrônico é virtual e que ninguém poderá localiz á-la espacialmente. 
Este diálogo finaliza com o seguinte comentário da escritora: “Porque além desse problema do IPTU era só o que me faltava agora ser alvo de milhões de curiosos, de gente que prefere ver o escritor a ler seus livros”.

Diante deste relato temos várias questões:
1ª: a relação da escritora com seu fazer
2ª a preocupação da escritora em relação ao público
3ª a defasagem do receptor com a obra
4ª a tentativa da escritora em diminuir esta defasagem, colocando em primeiro lugar não a sua arte, mas o que esta arte lhe tem negado:
o trânsito fácil com o público, pela porcentagem de novidade e conseqüentemente pelo estranhamento que sua produção causa ao leitor.
5ª a questão da mídia e a fruição de qualquer tipo de arte. Ferreira Gular uma vez comentou, na Folha de São Paulo, que atualmente as pessoas se contentam em ler a notícia de uma exposição no jornal e já se sentem como se estivessem visitado a mostra.

Isso nos remete a colecionar mais uma questão no circuito de qualquer produção artística: a inércia e a preguiça do público não só em captar as significações da obra, como também para entrar em contato com ela. Pois cada indivíduo reage ao mundo, à multiplicidade de estímulos que o atingem- conforme ele os percebe. Assim qualquer obra de arte está a mercê da forma com que cada indivíduo percebe o mundo.

T.S. Elliot em seu livro A Essência da poesia, num dado momento, sentencia
Devemos suspeitar do poeta, e eu modifico, do artista que adquire grande popularidade com muita rapidez, em sua época.

Isso nos faz temer que este artista, na verdade, não está realizando nada de novo,  mas apenas fornecendo ao público aquilo a que já está acostumado.

No entanto, é importante que o artista tenha uma popularidade ainda que pequena em seu próprio tempo.

Deveria haver sempre uma pequena vanguarda de pessoas – ou avançadas em relação a seu tempo- ou prontas a assimilar as novidades mais rapidamente.

E conclui:

“O desenvolvimento da cultura não significa trazer todos para as primeiras linhas. Significa a manutenção de uma elite em paralelo a uma grande e mais passiva maioria de receptores, não mais distante dela do que uma geração ou pouco mais.

Também justifica dizendo:

“As modificações e desenvolvimentos da sensibilidade vão se insinuando gradualmente na língua através da influência desses poucos nos outros e através de artistas mais imediatamente populares, e quando estas modificações estiverem, afinal firmadas, novo avanço se fará necessário”.

Talvez seja difícil para o homem comum compreender os desígnios da obra de um verdadeiro artista. A sua finalidade.
Duchamp, o revolucionário (que elevou qualquer objeto indu strializado à categoria de arte, pela simples ação do artista sobre ele) afirma haver uma grande diferença entre pintura que só se dirige à retina e uma pintura que vai mais além da impressão retiniana, uma pintura que se serve do tubo de cores como um trampolim para saltar mais longe.

A pintura pura não interessa a Duchamp, nem como finalidade. Para ele a finalidade é outra.

O fim da atividade artística não é a obra, mas a liberdade. É capacitar cada vez mais.
É o desenvolvimento de um olhar perfurante que possibilite a ruptura de fronteiras, regras, estruturas. 
É a possibilidade de se descer à zona de silêncio na qual o espírito solitário se defronta com o absoluto e sua máscara: o acaso.

Assim a obra não se restringe a ser um sistema de relações artísticas, é principalmente um método de investigação interior.

Diante de tudo isso, fica difícil se pensar a arte como uma simples mercadoria. Se ela se transformar em produto de troca, que seja por vias indiretas.

Em 1983, durante o 2º Encontro Nacional de Artistas Plásticos Profissionais, ouvi da boca de um grande artista brasileiro a resposta para uma pergunta que me chocou bastante. Perguntado sobre o que ele pensava quando produzia uma obra de arte, respondeu: na conta de luz que tenho de pagar no fim do mês.

Ora se a arte se propõe a recriar mundos e sentidos, a buscar novas ordens para serem logo quebradas, a descobrir ocultas fronteiras, a explorar os labirintos da alma humana, a retirar de sua linguagem novas qualidades estéticas, seu campo constitutivo não pode antecipadamente impor-lhe finalidades, objetivos, funções. Não pode colocá-la a mercê da perversidade de um mercado imediatista e consumista, dirigido por grandes interesses que se imiscuem hoje em nossa subjetividade e ali atuam, através da nossa permissão inconsciente.

A criação, ao destruir o conhecido, nos expõe à catástrofe, tira as nossas referências e nos abandona em terra estranha. Traz o inaudito e nos desorienta, mas também nos recompensa, mesmo que por poucos instantes, com satisfações fugidias.

A tarefa do artista é dura. Ao mesmo tempo em que se entrega ao processo de desmantelamento do conhecido, administra conflitos, frustrações, ansiedades. Fantasia, regride, racionaliza, compensa, projeta, identifica, foge, nega, mas no fim cria.

Convenhamos que a tarefa é árdua, cansativa desgastante. Mas o curioso é que nunca se ouviu falar de algum artista que tivesse desistido da arte por alguma dessas razões. Talvez por entender a complexidade do fenônemo artístico ele se entregue a esse doloroso processo. Pois seu objetivo está mais além.

Recorro a Schiller novamente, pois suas palavras me parecem sintetizar o que aqui tentei deixar no ar.

O artista é, decerto, o fil ho de sua época, mas ai dele se for também seu discípulo ou até seu favorito. Que uma divindade benfazeja arranque em tempo o recém-nascido ao seio materno e o amamente com o leite de uma época melhor, deixando-o que atinja a maturidade sob o céu distante da Grécia. Quando se tiver tornado homem volte, figura estrangeira, a seu século: não para alegrá-lo por sua aparição, mas terrível, como filho de Agamenão para purificá-lo. Embora tome a matéria ao presente, ele extrairá a forma de tempos mais nobres ou mesmo da unidade absoluta e imutável de sua essência para além de todo tempo.



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