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Mônica Zielinsky


Liana Timm manifesta uma concepção no espaço de representação pertinente à sua modalidade de fixação ao mundo. Observa-se ordenação espacial no suporte. Planos bem determinados, molduras delimitando focos específicos; etiquetas simulam estar coladas às bordas do suporte. A fixação da artista ao mundo parece-nos ter muito a ver. Ela contempla com acuidade perceptiva fatos, mitos, ambigüidades. Questiona, contemplando-os. O casal em Armazém Modelo, que assiste aos horrores da guerra, são seus cúmplices. Participam juntos, fixados em um ponto, do processo de observarem o mundo. A linguagem espacial da produção plástica de Liana manifesta clareza na composição dos diversos ângulos e planos. Sua linguagem verbal, igualmente é ordenada e. seqüencialmente lógica. Verifica-se coerência. No entanto, de vez em quando, a surpresa: contrapontos que quebram a seriedade da primeira impressão. Grafismos mais agitados e cheios de rapidez e intensidade o corte dos instantes em lugares inusitados, clips que reúnem os diversos clichês, superposições que chocam estes planos em seus contextos encerram uma nova problemática espacial no trabalho da artista.

A artista está consciente da ruptura da visão unitária do espaço. Considera os cortes, fragmentações, elementos que refletem e reforçam o dinamismo de sua própria vida, também de sua espreita da vida. Tudo pode ser simultâneo, como nas telas de televisão ou em seu próprio pensamento. Daí os contrapontos – conflitos contextuais, incongruências espaciais. Percepção da artista (sujeito) do mundo real, de si própria. Percepção do leitor (sujeito também) frente à obra igualmente dinâmica, simultânea e extensiva além dela mesma. “Esta deve estimular a percepção”nas palavras de Liana. O leitor, atuando, recompõe o mundo percebido através do que lhe é dado pela artista. Ação. Dentro da primeira idéia de ordem, o movimento. No limite do bidimensional, o extravasamento do espaço e mais, ainda, do espaço em ação.


lnfinitude de corpos povoam o espaço plástico no trabalho de Liana Timm: vestidos – despidos. Jovens – velhos. Comuns – mistificados. Sozinhos – em grupos na multidão. Infinitude de posturas, rostos, e cortes. Um aspecto comum: partindo de clichês fotográficos, os corpos que vivem o espaço de representação não sofrem deforma ções evidentes. São o trabalho gráfico meticuloso, estudado em sensíveis pontos, linhas e traços que acompanham o suporte fotográfico. Muito do mundo real, mas muito do mundo construído a partir do real.
Para o olho avisado, a manutenção de coerência da linguagem na multiplicidade de séries da produção; sutilmente a mutação de detalhes que a enriquecem na sucessão das fases.

Espaços cortados – corpos cortados. Integração da temática em estudo. A multiplicidade de pontos de vista espaciais igualmente exige corpos nessas condições. Planos espaciais diante ou atrás dos corpos. Repetição da estrutura espacial e dos corpos contidos nela. A(s) leitura(s) da produção plástica de Liana Timm é impossível de forma unitária e linear, conforme se verifica nas obras de origem humanística. Atendendo ao referencial teórico desta pesquisa, o seccionamento dos significantes está no seccionamento dos significados desta linguagem. Toda construção das partes não impede que se tenha clareza da existência intensa de heterogeneidade de realidades, tanto plásticas como sociais. Revoltas contra a opressão sobre a mulher. sobre a identidade de um povo, sobre os efeitos da guerra, sobre o público-privado, sobre o coletivo-individual estão n os espaços do corpo em trajetória da produção artística de Liana no confuso e ambíguo sistema de arte do Rio Grande do Sul.

Cinco significados e representações. Kern, Maria Lucia Bastos. Espaços do Corpo: aspectos das artes visuais no Rio Grande do Sul (1977-1985)/Maria Lucia Bastos Kern, Mônica Zielinsky, Icleia Borsa Cattani ? Porto Alegre, Editora da UFRGS, 1995.



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