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Marta M. Smith | 1998


Highlights do imaginário de Liana Timm
Marta M. Smith

Artista de múltiplas facetas e, “embebida das características de sua época”, LIANA TIMM introduz seu jeito particular de experienciar a realidade, apropriando-se ora de uma, ora de outra modalidade artística.

Com elas, interpreta as inquietações e desejos humanos, criando textos visuais cujas marcas expressivas dão conta de um estilo inconfundível. Tal estilo pode ser reconhecido em suas diversas performances como ARQUITETA, DESIGNER, ARTISTA PLÁSTICA e POETA.

Em todas estas derivações, há a mesma forma de olhar o mundo, um olhar agudo, crítico e seletivo que sintetiza um real experienciado tanto pela razão quanto pela emoção.

Através da exploração de linguagens bi e tridimensionais, da tecnologia contemporânea, de técnicas clássicas e do uso de referenciais cotidianos, LIANA TIMM tece uma urdidura criativa que explora opostos, tais como: estrutura/desestrutura, figura/abstração, explícito/implícito, produto/conceito, original/cópia, qualidade/quantidade, manual/mecânico, erudito/prosaico, imp ressão/sensação, falso/verdadeiro, conteúdo/expressão.

Destacando highlights do universo plástico de LIANA TIMM reconhecemos como leitmotiv reincidentes imagens que a artista seleciona, interfere, manipula e revela, com o intuito de seduzir o olhar. Um olhar a ser conquistado primeiro por meandros estético-plásticos, após, por outros níveis de fruição.

Fiel às marcas de sua criação LIANA TIMM busca a “entrosagem” de conceitos e técnicas na tentativa de atingir a completude; necessidade ancestral que desdobrada pela poética visual, se presentifica em roteiros plásticos imaginários. Tais roteiros valorizam da cor seu potencial emotivo para configurar uma atmosfera de simples prazer, onde a empatia pelo deleite, assume importância fundamental na possibilidade relacional do público e da própria artista com a obra em questão.

Seu trajeto, dentro da arte do Rio Grande do Sul, constrói-se através de incessantes experimentações, conceituais, expressivas e t écnicas, como também através de sua atuação em causas culturais coletivas. Entre as mais marcantes temos a sua participação como: co-fundadora do Movimento Gaúcho em Defesa da Cultura (1981- Movimento que lutou pela preservação do Gasômetro como espaço cultural da cidade), presidente da Associação Rio-grandense de Artes Plásticas Francisco Lisboa(1 982/84) e coorganizadora do 2° Encontro Nacional de Artistas Plásticos Profissionais (1983).

Suas experimentações tridimensionais iniciam-se com materiais que possibilitam a moldagem de formas esculturais transparentes, em que a incidência da luz assume papel principal no efeito plástico da obra. Com cimento, LIANA TIMM executa painel escultórico (1975), sobre a imigração italiana, cujas linhas e formas facetadas fluem de sua formação como arquiteta.Tal incursão nas artes plásticas amplia-se ao design. LIANA TIMM monta uma oficina onde produz luminárias, vitrôs, coifas de lareira e pequenos móveis, reunindo diversos materiais, entre eles o alumínio, a madeira, o ferro e o acrílico.

O desenho, antes eleito como modalidade preferencial , agora é parte de um mix técnico, onde a heliogravura, a eletrofotogravura, a serigrafia, a pintura, a escultura, a computação gráfica, as cópi as a laser e os objetos, transitam nas mais diversas temáticas, com seu modo inquieto e prescrutador diante da história da humanidade, das ideologias e das mais íntimas questões.

Sensível às influências de seu tempo, LIANA TIMM constrói um imaginário, através da dialética entre circunstâncias, figuras cronologicamente identificadas por seus contemporâneos, visões particulares e personalizadas. Assim, sucessivas séries tomam forma. Entre elas, algumas em que a poesia é seu maior motivo, como a intitulada Retratos de Cecília (1981) baseada no poema de Cecília Meireles; Retrato.

Outras como Iconografia Resumida (1980), explicitam “(…) a reflexão sobre o homem e sua interação social. Menos intimista que na série anterior Amarras (1980), a artista traz, para o universo da arte, elementos da comunicação de massa, como a iconografia das multidões, sem neutralizar os personagens. Fis ionomias conhecidas se sobressaem, entre elas políticos, intelectuais e artistas. Criam-se personagens que adquirem identidade para acentuar o contraponto: coletivo/particular. E o que se pode constatar também nas série Traição, Família e Impropriedades e Público-Semi-Público-Privado (l980). Ambas tratam do insólito na sociedade, do ponto de vista da privacidade, através de cenas íntimas trabalhadas jornalisticamente, com base em estudos fotográficos, junto às vivências externas ou coletivas. As grafias, dispostas livremente sobre o papel, ocupam sessenta por cento do suporte. O vazio restante torna a obra ilimitada em sua significação.

Com virtuosismo técnico, LIANA TIMM aborda a II guerra na série Armazém Modelo (1981), tratando planos de destaque e figuras, que ora dialogam, ora são onipresentes. Mesclando a cor, através da tinta acrílica pela gestualidade, e o branco e preto pelo nanquim; a artista consegue valorizar a caligrafia de um traço ora nervoso, ora organizado. Trabalhando imagens fragmentadas, repetidas e reticuladas, LIANA TIMM produz efeitos diversos. Concentra e dispersa a atenção criando uma atmosfera de mistério, contrastes e embates sobre as mesmas.

Concomitante à criação e produção artística, a gráfica assume papel importante no cotidiano da arquiteta e artista. Marcas, cartazes, folders, catálogos, livros, enfim o universo das artes gráficas vai tomando corpo. Nas artes, a série Paradoxos (1982), vem para dar vazão à ironia, cuja sutileza se vale essencialmente de faces, através de cortes e seqüências cinematográficas, como instrumento de captação do instantâneo. Fazendo respirar a composição pela ausência, LIANA TIMM deixa a cargo do fruidor qualquer complementação. E o que vai aprimorar em David sem Ângelo (Prêmio Aquisição-IV Mostra do Desenho Brasileiro-Curitiba/PR – Artista Convidada-1982), quando questões sobre nossas heranças culturais assumem a dianteira da produção.

Elegendo ícones da cultura universal, a artista reflexiona sobre a nossa identidade cultural. Trazendo à memória o grande mito David, LIANA TIMM faz com que sua imagem contracene e dialogue com as tentativas tupiniquins da criação de semelhantes. Em David concentra a problemática das heranças culturais descontextualizadas, tensionando ainda mais este campo conflituado, quando contrapõe figuras toscas e geograficamente referidas. E o que dará continuidade em Amenas Inferências (1984). Nesta proposta, composta de desenhos, heliogravuras, eletrofotogravura, serigrafias e fotografia, LIANA TIMM trabalha com a sucessão e a fragmentação de cenas, cujo jogo principal é a apresentação simultânea de vários tempos no espaço único de trabalho. Na diversidade conceitual e ótica, o futuro indefinido e desconhecido é ficcional. São trabalhados sistemas de registro da realidade e, da história, numa dialética entre o todo e a parte. Assim a percepção, vagando de um lado a outro, levanta múltiplas inferências passíveis de interpretações particulares.

O ano de 1985, para LIANA TIMM, foi todo praticamente dedicado a um trabalho especial. Através do texto crítico de Tânia Carvalhal e das fotos de Liane Neves, a artista elabora uma série de ilustrações para a publicação Quintana dos 8 aos 80 (1986). A modalidade ilustração já lhe havia despertado atenção quando trabalhava para o livro Qorpo Insano: urna antologia provisória (1977).

A vida do poeta e sua obra interpretadas por LIANA TIMM na citada publicação demonstra maturidade e segurança no trato contemporâneo da diversidade técnica escolhida. Reunindo imagens reais e imaginárias, LIANA TIMM opta pela produção de peças de leitura direta e fácil, garantindo também um aprofundamento das significações.

Ao mesmo tempo em que se dedica às ilustrações de Quintana – LIANA TIMM prepara seu primeiro livro de poesia. Amenas Inferências (1986), título de sua série plástica de 1984, recebe também a assinatura da artista no design gráfico, que assume mais uma de suas facetas: a de escritora.

A mesma linha de trabalho usada por LIANA TIMM em Quintana, origina outra série de desenhos a serem publicados num livro sobre o Rio Guaíba. Dividido em 11 capítulos, Crônica de um Rio (1987) trata da relação do Guaíba com a cidade de Porto Alegre, da impressão dos primeiros viajantes que aqui chegaram, das festas populares em torno das águas, do belo pôr-do-sol, entre outros temas. Para cada capítulo foram elaborados desenhos especiais, nas quais imagens históricas de lugares se mesclam a imagens atuais, compondo um verdadeiro inventário visual da cidade e seus arredores. Planos sobrepostos e transparentes, mais imagens em close, atemporizam a produção, evidenciando o trata mento da cor e do traço.

Tal a repercussão da obra, que mais um livro reúne entre textos, agora além das ilustrações e do design gráfico, os poemas de LIANA TIMM. Faróis da Solidão (1988) vem preencher uma lacuna na bibliografia do Estado. Reúne, num só volume, a história de todos os faróis da costa gaúcha em diversas visões: a do jornalismo, a da poesia, a da ficção, a da fotografia, a das artes visuais (Prêmio MARGS de Comunicação Visual-l Bienal de Arquitetura/POA/RS-1991).

Ligada ao teatro, LIANA TIMM inicia a produção de alguns espetáculos, entre eles o musical infantil, Gudula, urna bruxinha de Pano. Com texto e direção de Delmar Mancuso, trilha musical de Adriana Calcanhoto, cenário, figurino e produção gráfica da artista. O empreendimento lhe proporcionou o Prêmio de Melhor Produção Teatral de 1988 da Secretaria Municipal da Cultura de POA.

E mais um livro de poesia é lançado: Estados Ernpíricos (1989). Desta vez com um e spetáculo de teatro, o mesmo convidado a abrir o III Festival Universitário de Teatro de Blumenau/SC. O cenário, um jogo de cartas estilizado, ao ser manipulado pelas atrizes torna visível a imagem montada no verso das peças.

Os anos seguintes são efervescentes. Na linha de publicações de arte, LIANA TIMM produz um livro/disco com o músico Geraldo Flach, sobre hinos brasileiros. Um painel de cinco metros de comprimento é elaborado na tentativa de retratar a brasilidade. Através da cor, dos símbolos de patrimônio público, enfim do ecletismo de nosso perfil desde a colônia. Batiza-se de Amor Febril (1990), o livro que vira espetáculo de teatro e, cujo cenário a artista assina com Luciano Alabarse.

Nesse meio tempo, uma outra série plástica nasce, trata-se de Arte que te Quero Arte(1990), configurando um divisor de águas na produção de LIANA TIMM. Questionando várias oposições, a artista pratica as idéias/teorias que sempre nortearam a sua postura artística. ltinerando por diversas capitais brasileiras, a série é apresentada, em 1991, a convite da direção, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, na sua variação intitulada Caligraflas do Corpo.

Arte que te Quero Arte quebra o tabu da autoria, trazendo o fruidor para dentro da criação, quando possibilita rearranjos de partes de um jogo, batizado pela autora de Teoremas Visuais. Dentro de embalagens, a artista acondiciona fragmentos de uma imagem da história da arte escolhida e ampliada, mais precisamente gravuras renascentistas do acervo do Metropolitan Museum of Art de Nova York, e possibilita seu remanejo, transformando a figuração em abstração ou a recuperação da imagem original, em outra relação de escala com o observador. As obras executadas em papel kraft, couché e vergé, pela técnica da eletrofotogravura, desmistificam a importância de materiais nobres na qualidade da arte.

Nessa época, LIANA TIMM volta-se ao estudo do papel-moeda brasileiro, do Império à República. Cria então, a série Papéis que Valem Ouro (1991), na qual imagens selecionadas das cédulas convivem com passagens representativas da história brasileira. Mesclando o desenho, a eletrofotogravura, o recorte e o lápis de cor, estes trabalhos configuram um conjunto serigráfico referencial da história brasileira.

A mistura de técnicas manuais e mecânicas numa mesma produção conduz LIANA TIMM à criação de Misturas Principais (1992). São trabalhos executados em partes, que somados originam a totalidade. A repetição de soluções plásticas, com variações cromáticas ou aproximações e distanciamentos, são usadas como símbolos contemporâneos culturais. Imagens orgânicas são trabalhadas com imagens geométricas, sucessiva e simultaneamente, criando múltiplos acontecimentos.

Através da apropriação de imagens de artistas consagrados, LIANA exercita a intertextualidade, descontextualizando a citação e revitalizando tanto o seu conhecimento quanto a sua plasticidade, por torná-la partícipe de uma nova circunstância artística.

Misturas Principais (1992), é também o terceiro livro de poesia de LIANA TIMM. As ilustrações, o design gráfico e os textos formam um conjunto, através das diversas linguagens produzidas pela artista. Neste mesmo ano, mais dois livros são publicados: Arte que te quero Arte, de poesia (dentro da coleção PetitPoa da Secretaria Municipal da Cultura) é Culturas em Movimento a influência da imigração alemã no Rio Grande do Sul, uma coletânea de ensaios sobre diversas áreas do conhecimento, na qual LIANA TIMM assina o capítulo que aborda a influência da cultura alemã nas artes plásticas do Estado e o design gráfico da publicação em co-autoria.

Através do uso do computador e do auxílio de uma copiadora a laser LIANA TIMM cria a série Angulações do Olhar (1993). Transportando imagens para a tela a artista interfere com a manualidade no efeito mecânico da reprodução de fragmentos clássicos da história da arte. A captação criativa do óbvio é o grande tema da série que passeia por pretextos artísticos para afirmar o valor da percepção na apreensão do mundo e na administração da existência. Tal diretriz tem suas variações em Prazeres do Olhar (1995). Nesta série, mais importante que a obra em si, é a constatação da importância da visão no estabelecimento de uma comunicação sem palavras, no resgate de técnicas simples como a bordadura e a introdução de elementos estranhos ao campo da arte. Cordas, contas, botões e uma sér ie de elementos tridimensionais se mesclam à pintura e a transposições a laser, num vigoroso contraste de recursos.

Neste mesmo ano, LIANA TIMM tem a oportunidade de aumentar a sua produção sobre a cidade de Porto Alegre, quando é convidada a ilustrar, para a Secretaria Municipal da Cultura, uma revista, História, Histórias de Porto Alegre (1995), assinada conjuntamente por Tabajara Ruas (editor) e Edgar Vasquez, que formulam outras versões para o tema.

Em continuidade, temos a série plástica Revelações do Olhar (1996), que focaliza a força significativa da imagem confirmada como competente para estabelecer um diálogo cujo sentido se revela nela mesma, ou seja, na sua suficiência comunicativa.

Ao mesmo tempo que Angulações do Olhar; Prazeres do Olhar e Revelações do Olhar são elaborados, nasce Trilogia do Indizível (1997), seu quinto livro de poesia. Reunindo poemas produzidos a partir de 1993, a obra tenta, pela linguagem verbal, expressar o inexprimível, traduzir o intraduzível, dizer o indizível. O livro tem seu fechamento através de uma entrevista concedida a Patrícia Bins, cujo mote principal é o processo de criação da artista. Simultaneamente à produção de arte e poesia, LIANA TIMM lança a International Design, onde desenvolve papéis de parede, tecidos para arquitetura de interiores, reciclagem de mobiliário, pinturas especiais e diversos acessórios e equipamentos para vários tipos de ambientes. Renova o conceito do papel de parede, ao lançar papéis modulados de maneira a possibilitar infinitas montagens, transformando assim cada parede em solução única e original.

A presente produção plástica reúne várias técnicas com predominância da pintura, na qual as entrosagens vão sendo produzidas por colagens, recortes, bordaduras e acessórios os mais variados. Grandes formatos possibilitam explorar massas de cores e texturas, em contraponto com delicados elementos pulverizados na superfície. Buscando o impacto plástico dos elementos, as obras se desenvolvem na direção do prazer e da beleza, únicas exigências que a artista se faz atualmente, depois de uma incansável vasculha nas profundezas e mistérios da condição humana.



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