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Margarete Moraes 2008


MARCA LIANA TIMM

Texto lido na cerimônica de outorga do título de Cicacã de Porto Alegre à Liana Timm. Câmara dos Vereadore da cidade de Porto Alegre.


Seja como artista plástica, arquiteta, designer, cronista, poeta, atriz, mestra em educação, cineasta ou em tantas outras facetas criativas em que por seu espírito criativo se envolva, Liana Timm é singular referência do tempo e do espaço em que vive. Tal destaque se dá por múltiplas razões, especialmente por sua inquietude e pela capacidade de expressar emoções e atitudes diante da vida a partir de uma poética própria e sincera, ao se valer de todos os meios possíveis e imaginários, desde que se revelem compatíveis com a sua lógica e integridade construtivas.
Em 2008, comemora-se em vários lugares do mundo, a posse do primeiro negro na presidência norte-americana, assim como os quarenta anos do emblemático 1968 e os cem anos do nascimento de Simone de Beauvoir. Certamente, datas simbólicas civilizatórias para a história da humanidade . Em 68, segundo Zuenir Ventura, o ano que não acabou, jovens de diversas nacionalidades queriam transformar a existência ao aludirem-se a algumas personalidades, dentre as quais Simone de Beauvoir, Jean Paul Sartre e Martin Luther King. Tal reinvenção da vida supunha o estabelecimento de relações horizontais entre os povos, assim como o rechaço a todas as formas de censura, convenções sociais e autoritarismos instituídos sob diversas ideologias. Falamos de uma geração que desejava “tomar o céu de assalto” e reivindicava outra cultura, onde o cultivo à diferença fosse valor e direito universal.
Hoje, compreendemos que cultura é também fruto da contribuição de todos, respeitando particularidades, línguas, imaginários, histórias, tecnologias, práticas e expressões, mas em 1968 a vida não era assim.
Se nem todos os sonhos se realizaram e muitos pagaram um preço muito alto pela ousadia da proposta do novo, na verdade muita coisa mudou. Certas pessoas descobriram o encantamento com a arte e a cultura, e passaram a acreditar no esforço individual e coletivo para a construção solidária de outro destino, jamais previsto nos padrões vigentes de então.
Nessa data em que lhe conferimos o título honorífico de Cidadã de Porto Alegre, identificamos em Liana Timm similitudes com essas breves observações, sobretudo na gênese da incompletude e do inconformismo em seu jeito libertário e propositivo de ser e estar no mundo. Em sua trajetória de quem não aceita simplesmente a vida como ela é, Liana constitui constantemente um espaço de excelência artística desafiador da experimentação. É o caso das artes visuais quando alterna e confunde forma e imagem, sobrepondo materiais e técnicas em pinturas, desenhos, colagens, fotografias, vídeos, computação, sem nenhuma possibilidade de abrigar quaisquer limites classificatórios. Em Liana, não se consegue separar o dito abstrato do figurativo. Ambos se colocam na tela, sem receio ou preconceito. Hoje, em 2008, nossa artista trabalha infinitas idéias, até há pouco tempo tidas como inviáveis na arte digital e no vídeo-arte. Amanhã, ninguém imagina qual caminho trilhará.
Em todas as situações, seu estilo único de quem é de fato artista, impõe-se soberano. O último trabalho que tive a alegria de fruir, uma obra de impacto, plena de significados e surpresas, foi a mostra que celebra e propicia o conhecimento da grande figura gaúcha e universal do escritor Cyro Martins, na passagem de seus 100 anos de nascimento. São painéis de grandes dimensões, sutis e instigantes, representação contemporânea do universo rural e urbano do RS, vivenciado pelo autor. Em uma seriação pictórica, acompanhada por uma linha de tempo real, Liana troca figurinhas com Cyro ao acrescentar imagens de vultos marcantes existentes na época de Cyro, pessoas que se destacaram, tais como Elis Regina, Elvis Presley, Marlon Brando e Che Guevara. Ou seja, utilizando-se do seu próprio repertório, Liana dialoga com o imaginário do autor, sendo que ambos preenchem majestosamente o espaço na Galeria de Arte da Casa de Cultura.
Ao nos fixarmos na poeta Liana Timm, o talento se equipara aos demais universos artísticos que se aventura, pois domina palavras, métrica e ritmo, auto desvelamento e ironia, síntese e contundência. Rejeitando uma linguagem severa ou solene, consegue envolver o leitor com gosto, surpresa e prazer.
Se em 2008 lembramos da pioneira Simone de Beaouvoir, e sua teoria feminista revolucionária posta em prática, vislumbrando e sugerindo novos padrões de existência para as mulheres, mais rica de significado, podemos então saudar o ser humano mulher, a Liana Timm instigante, exuberante, dona de seu destino, alguém que jamais passa desapercebida. A mulher bem-humorada, inteligente, ligada e desligada da realidade, com aquele olhar azul de artista, um olhar de devaneio, etéreo e flutuante. Mesmo assim, um olhar que quase sempre enxerga além das aparências.
Podemos nos referir ainda à mulher cidadã, protagonista de seu tempo e das causas coletivas, que defende o artista como um profissional que trabalha duro, sofre e merece reconhecimento, e já assumiu a Presidência da Associação de Artes Plásticas do Rio Grande do Sul Francisco Lisboa e da Associação Nacional de Semiótica.
Liana Timm é um ser humano tão rico que pode ser definida sob múltiplos pontos de vista. O que se mantém inexorável é a luz própria e irradiadora, em quaisquer condições.
Por essas e tantas outras razões, sobretudo porque sua obra não é episódica, pois até aqui temos mais de 60 exposições individuais, mais de 125 coletivas, mais de 15 premiações, mais de 20 livros editados, reveladores do pensamento imaginativo, da necessidade que Liana tem do exercício permanente da criatividade, nós que temos o privilégio de conhecer tanta arte, dizemos: temos muito orgulho de ti. Receba portanto, o reconhecimento da cidade traduzido no voto afirmativo dos 36 vereadores, de todas tendências ideológicas.
Um grande abraço aos teus filhos Samanta, Carolina e Antonio, bem como a tua família.
Pelo exemplo de vida, pelo conjunto da obra, por tudo aquilo que ainda legarás para nossa cidade, estado e nação.

Muito obrigada,

Margarete Moraes

Vereadora do PT de Porto Alegre
Porto Alegre, novembro de 2008



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