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Lenira Fleck | 2006


Eterno Devir

Ser habitado pelo mistério / é privilégio do olhar múltiplo / da expressão / que afunda o entendimento./ Pelo mistério / rejeita-se / a permanente e morta pedra / aos pingos ritimada. / Ser habitado / é transfigurar-se / desconhecer-se / para ser-se a cada tempo / pleno e indecifrável…

 

A pulsão escópica num fluxo permanente, o movimento ininterrupto, atuante, como uma lei geral do universo que dissolve e cria, transforma as realidades existentes num eterno vir a ser…

(Re)velações do Olhar – ou muito além do olhar – trata-se de uma metamorfose do título original de uma das poesias de Liana Timm que já foi título de uma exposição anteiror, agora (re)editada.

O “olhar” é um significante forte na obra da artista, expressão além de uma visão de mundo é um olhar em constante metamorfose…

O ato de (re)velar revela e vela num vir a ser, resgata a capacidade do humano de se (re)inventar constantemente, sabendo-se que “eu não existo senão pelo e sob o olhar do outro”…

Estes prefixos que podem aparecer e desaparecer remetem à idéis do que poderia ser uma noção de a posteriori…são palavras que criam e (re)criam o que poderíamos chamar de mundo pós-moderno… 

O tema da pesquisa sobre o ato criativo e ato psicanalítico tem girado em torno das metamorfoses: arte e psicanálise, convocando uma revisão também nas metamorfoses do mundo contemporâneo.

Segundo Michel Mafesoli, é possível situar este vir a ser numa passagem entre “aquilo que é” e “aquilo que se gostaria que fosse”, porém, tratando-se do processo criativo de Liana Timm, esse movimento sofre uma ação retroativa, pois o olhar nostálgico recebe uma marca importante em seu trabalho. Existe uma tendência a jogar o pensamento projetado para o futuro, em detrimento ao presente, ao aqui e agora, ao que é… A artista subverte a lógica e propõe o atemporal: passado, presente e futuro articulados ao imaginário, ao simbólico e ao real, poetizando a condição humana.

“Somos todos feiticeiros…escreve a artista, uns tiram da cartola coelhos/ outros de misturas incomuns a ilusão do ser inteiro”.

Liana opta pela corrente da vida cotidiana, nas limitadas possibilidades de um corte que permita a criação do instante. Em função disso, situa-se na contracorrente do teoricamente correto. Vivencia o rigor enquanto coragem intelectual ao encarar o pensamento como um verdadeiro risco, assim como a vida. Ou seja, “aquilo que é” e não apenas “aquilo que gostaria que fosse”.

A arte digital de Timm (re)vela um conflito da ordem do chamado ritual de passagem, movimento daquilo que se poderia chamar homogeneização (característica da modernidade) à heterogeneização (característica da pós-modernidade).

Liana é adepta ao monoteísmo de Nietzche, em que o processo criativo é extremamente prolífero. Mesmo que num movimento lúdico, deixa uma brecha para múltiplas identificações do interior de si mesma, para inúmeras pluralizações.

Há um romantismo mascarado, em que o belo ganha seu valor, enquanto a estética das qualidades do sentir torna-se discretamente freudiana…

A artista, ao invés de explicar o mundo, está mais ocupada em se implicar com o mundo, numa relação forte e extretamente pulsional, uma relação de encantamento com o mundo e suas possibilidades de (re)invenção e (re)velação…

Este vir a ser é tornar-se, transformar-se, devenir… O fim de um olhar…o fim de um mundo abrindo-se ou deixando-se possuir por outro…

Neste sentido somos todos feiticeiros…



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