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Léa Masina | 2009


ÁGUA PASSANTE

A metáfora da “água passante” sintetiza o fazer poético de Liana Timm, artista plástica reconhecida e poeta experiente, com diversos livros publicados. Liana oferece agora ao leitor um mergulho nas profundezas de uma estética em constante movimento, apreendida na fragmentação das coisas e na possibilidade de uni-las provisoriamente, sem deixar-se aprisionar pela estrutura previsível e imediata da realidade: minha estética / reluz no desfocado/ espectro de outra natureza – ela escreve.

Do primeiro poema ao final da segunda parte do livro – Paisagens do interior– a poeta reafirma seu gesto libertador, mediatizado por uma sensibilidade porosa, dequem sente com o corpo o próprio tempo fluindo em imagens, em ideias que deslizam ocupando lugares provisórios. Poesia fortemente substantiva – e as palavras sutentam o poema sem concessões à fragilidade romântica ou sentimental – decorre do desespero de dizer, de nomear ou de compor as coisas para espelhar  o eu poético nesse mundo criado à flor da pele. Essa busca de auto-conhecimento requer do leitor forte interação e empatia, eis que cada verso é um desfaio que, na singeleza das palavras, propõe-se como um verdadeiro enigma. O que permanece é o sentido da migração, do movimento constante da alma que não se contenta com a concretude do momento e sua volúpia, e se aventura ao vento, busca as aragens, as águas passantes, o salto do gato, recolhendo o fluir das estações. Ciente de que a escrita nada tem de passatempo, Liana escreve com o corpo, inculada a sua refinada sensibilidade e á sua capacidade de percepção. Disso decorrem, também, poemas que transitam entre a expressão do mundo e a reflexão estética das formas – meta-poesia – quando as cores, o desenho das coisas, as sinuosidades, as tessituras e os deslocamentos fazem aflorar a artista plástica do domínio de seu métier. Ao fazer com a palavra o que faz com as tintas, Liana esculpe a si mesma, e isso ocorre sob escolhas singulares.

Cabe agora, aos leitores, desfrutar desse universo rico e sensual, eis que é na sensualidade que se funda sua esteetica.



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