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Jane Tutikian | 2011


OS POTES DA SEDE: quando o poema desvela a vida, a arte flana e arranha céus.

prefácio do livro OS POTES DA SEDE

 

Há poetas que lutam com as palavras e as aprisionam tentando entender o mundo.

Há poetas que lutam com as palavras as perfurantes e as libertam para que o mundo, em liberdade, se entenda. E, entenda-se por mundo a revelação do humano e do ser na vida.

Os primeiros revelam, não raro, interesses convencionais quanto ao comportamento social e literário.

Os outros, em contrapartida, complexificam para simplificar, encontram para desencontrar e reencontrar, causam perplexidade e comprometimento, impossibilitam o distanciamento entre o ser o que se é e o viver o que se vive. Propõem o espelhamento em que vida, humano e indivíduo se constituem.

Os outros não se submetem à sequência tradicional nem do verso nem do poema, num, por exemplo, eixo de acontecimentos de causa-efeito, de uma passagem de um equilíbrio a outro equilíbrio, de onde resulta o movimento e o seu ritmo, o que caracteriza a ação canonizada.

Os outros, só eles são capazes de experimentar o cansaço do encadeamento das palavras/ da lógica do dizer/ perfeita solução linguística e gritar a própria subversão: quero/ inventar/ um  outro jeito/ de pintar a dor fria da cor. É porque a sua subversão é a ruptura entre o equilíbrio e o equilíbrio, é a criação da ponte do equilíbrio para o desequilíbrio, onde tudo é imagem e tudo é movimento e recriação e liberdade e som e cor e inquietação, tudo é silencioso meditar/ fogo de tom infinito/ digo o que sinto/ quero o que pinto e, não raro, o encontro com a solidão.

É porque esses, os outros, são especiais, são os que mergulham no realismo percepcional para tirar dele uma realidade outra, mais sentida, mais vivida, mais pele no que a pele tem de vida no êxtase das fissuras. Eles são incapazes de se perceberem no tempo da vida, porque seu tempo é outro, e nele seu corpo pede poesia como água em ebulição.

E quando eu falo nos outros, os poucos, estou falando de Liana Timm e deste excelente Os potes da sede. Apresentar Liana, dizer do seu significado na vida cultural gaúcha, dizer da beleza de sua arte e da sua poesia é pura redundância. Ainda assim arrisco. Os potes da sede constituem um inventário da vida em poemas. Aliás, esta é a sua matéria de criação: o quotidiano que conhecemos apreendido de uma forma outra, a de quem sabe que a vida já começa finda, de quem nasceu meio velha/ contestando os limites do berço/ querendo de pronto/ aterrissar no deserto/ de um assombro.

Para a poeta, a palavra é em si, rompe o dicionário dos sentido, abre-se ao leitor em possibilidades múltiplas de ressignificação, entre o poema que me escreve e o poema que se inscreve no meu dorso. Um eu de poemas em poemas de um eu. É assim em Águas rasas e é assim em Insondáveis.

Olhar estrangeiro: New York, a terceira parte, empresta à poesia de Liana Timm um ritmo de prosa. O sujeiro lírico, enunciador da visão subjetiva é o mesmo, agora, estrangeiro no espaço conhecido, objetivo, mas, nem por isso menos inquieto, menos arrojado: A música reverbera/ A alma atravessa o vidro e flana.

É como, com rara sensibilidade, Liana Timm nos oferece estes potes em que as sedes, da poeta, do poema e as nossas se revelam e renovam, se renovam, se renovam, testemunhas que são das tensões vivas. É que, em Liana, o ato de escrever revela-se como um resultado do ato de viver e Arranha céus.



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