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Entrevista concedida à Patrícia Bins | 1997


LIANA TIMM: UM UNIVERSO DE POSSIBILIDADES

Liana. Segundo Tania Franco Carvalhal ainda tendemos a compartimentar as expressões artísticas. Você, poeta, gravadora, escultora e pintora. como vê a aproximação ou interrelação da escrita com as artes plásticas?

Patrícia, esta questão inicial abre a possibilidade de se discorrer sobre a polivalência. Há pouco conversava deste assunto com a minha amiga, semioticista, Maria da Graça Krieger, e ela me dizia: Mais importante do que ser poli é ser valente. No primeiro momento achei muito engraçado o jogo de palavras, mas logo após entendi a profundidade da brincadeira. E muito difícil, num tempo como o nosso, tempo da especialização, da mão-de-obra utilizada também como máquina, se compreender e aceitar que alguns indivíduos se dêem o direito de passear livremente por diversos lugares, à primeira vista divergentes, mas em verdade, variações em torno de um mesmo princípio: o da criação. Para isso o dado da coragem é fundamental. Mais que coragem eu diria, é preciso crer. Em princípio o uso simultâneo ou sucessivo de diversas linguagens expressivas está ligado à mola mestra da atividade criadora: a insatisfação. Queremos sempre uma aproximação maior com a nossa verdade, que nunca é plenamente revelada, pois em constante estado de transformação. Há momentos em que temos a ilusão desse encontro mas ele é muito efêmero e o criador retoma o eterno exercício para fixá-lo. Isto em nível mais abstrato. Objetivando para a interrelação da escrita com as artes plásticas, eu diria que, estas duas formas são intrinsecamente próximas. Especificamente escrita e grafismo, ou seja, a caligrafia da letra e a caligrafia do traço, utilizam canais comunicativos diferentes mas facilmente revezáveis. Se nos reportarmos à origem da escrita veremos que ela não era nada mais do que desenhos. Narrava-se sem palavras a cultura e os costumes de uma época. Nesse primeiro momento a imagem gráfica mantém estreita relação com a idéia apresentada. Vemos isso na escrita figurativa cuneiforme dos sumerianos e nas câmaras mortuárias e paredes de residências dos egípcios, para citar alguns exemplos. Esta forma de comunicação só perde eficácia quando a análise da língua falada revela a presença de sílabas, Então, estes desenhos a partir daí passam a representar sons e não mais objetos e idéias: início da escrita fonética. Os livros, antes disso, eram então, desenhos representativos de idéias, após, registros da expressão oral. Mais tarde, com o cristianismo os manuscritos resgatam a convivência da linguagem gráfica com a linguagem escrita, claro que de outra maneira. É Mário de Andrade quem nos diz: Desenhos são para a gente folhear, são para serem lidos que nem poesias, são haicais, são rubaes, são quadrinhas e sonetos.
É assim que eu vejo o parentesco do meu trabalho poético e visual. Apesar de cada um guardar maneiras diferentes de nos impressionar~ também emprestam um ao outro o que pode ser intercambiado, na busca de uma completude inatingível. Percorrendo os dois constantemente, me gratifico e purgo diante do inesperado. Trabalho então, não com os pontos de contato das linguagens e sim com os pontos comuns delas todas.
Isto que estamos tentando explicar agora, não é preciso fazer com o teatro. Por isso eu amo tanto o teatro. São raros os que se dão conta da utilização das várias linguagens pelo teatro. Ali, na magia do espetáculos jamais alguém tende a compartimentar a fruição. Na verdade o teatro soube e sabe como tecer a trama que reúne essas n possibilidades expressivas humanas, como nenhuma outra expressão.

Em seus poemas há dados memorialísticos. Até que ponto memória é real ou imaginária?

O tempo transfigura acontecimentos, recobre de magia as circunstâncias, aumenta as impressões, camufla o branco e o preto, enfim, impressiona a memória com dados irreais. Por isso quando se fala em obra memorialista, pergunto: quais os parâmetros que nos podem dar certeza do que é ou não memorialismo?
Todo trabalho é autobiográfico em algum sentido.
Algumas criações são estimuladas por vivências reais, outras pelas fantasias, entendidas por mim como realidades interiores. No meu caso especificamente, quando construindo este ou aquele texto, recorro a passagens fortes da minha vida que tanto fazem parte do viver quanto do desejar. Mas tais lembranças, distanciadas do momento original, se transmutam. Uma vez experimentei a confirmação disso quando em idade já madura visitei o prédio onde outrora foi meu jardim de infância, O pé direito não era tão alto quanto eu imaginava, nem a caixa de areia era tão descomunal como me parecia e naturalmente meus coleguinhas deveriam ter sido bem diferentes daquela imagem guardada. Lugar do falso e do verdadeiro, a memória é o depósito do que foi de outra maneira, inclusive no instante do acontecer; do que não é e nunca mais será o que  teria sido. A memória, utilizada como estimulo criativo, não inspira confiança àquele que busca nela a fotografia documental do acontecimento, pois seus guardados, contaminados pela imaginação, são transformados. Mas, surpreendentemente, apesar de tudo, ela é real em dois planos diferenciados: no plano da fantasia, em função de um referente, e no plano da verossimilhança, em função deste mesmo referente. Logo, a memória é tão real quanto imaginária. Distinção que nunca tive a curiosidade de equacionar, quando no papel de leitora, pois um texto me chama a atenção pela sua qualidade, ou seja, pelo modo com que o autor trata a linguagem em função de um conteúdo e vice-versa. E o que ele consegue com isso, independente dos fatos serem reais ou não.

Falamos, há tempos, das lembranças mais antigas. Poderias contar algo sobre este lembrar (a árvore de natal, por exemplo) e o modo com que interfere em seus trabalhos atuais ?

Pergunta interessante. Quando tu te referiste a isso naquela nossa conversa ao telefone, fiquei surpreendida e instigada a remexer no sótão das lembranças e me vi em cima de uma laranjeira no quintal da casa de meus pais numa cidade do interior do Rio Grande do Sul, Guaporé, com mais ou menos 3 anos. Me vi andando de triciclo em volta da casa num fim de tarde. Me lembrei da geladeira que veio dos Estados Unidos para a minha mãe. Parecia uma jóia. Também a chegada do liquidificador. O fogão à lenha e minha babá cozinhando; uma preta gorda, fofa e amável. Ela que chamou a atenção para a beleza do canto. Passava o tempo todo, enquanto trabalhava, cantando com sua voz melodiosa. Eu aprendi muitas canções com ela e quando alguma visita chegava, minha mãe, invariavelmente me fazia cantar. Me lembro também da primeira visão de um árvore de natal. Eu tinha um ano e pouco. Minha mãe arrumava os enfeites e eu espiava, através das grades do meu berço. aqueles reflexos coloridos e o balanço dos galhos. Depois vem lembranças da infância tardia, da adolescência… Mas para não fugir da tua pergunta, eu diria que o fato, a narrativa factual em si, nunca foi o elemento de maior importância utilizado em meu trabalho, seja poético ou visual. São as descobertas, os momentos de ruptura e transformação, como por exemplo: a passagem da condição de menina para mulher, a consciência da sexualidade, as paixões, o amor, a experiência da maternidade, as relações afetivas em geral, enfim, o que nos torna conscientes de nossa condição humana. É com isso que eu trabalho. Sabendo disso, não olho o mundo, vivo, experiencio receptiva e sem preconceitos as oportunidades da vida, pois nos construímos mais por aquilo que sentimos do que por aquilo que sabemos. Os intelectuais que esquecem de praticar a vida jamais estabelecem com os outros, relações verdadeiras. As teorias demasiadas não fornecem o nosso contato com o cotidiano.

Mistificar e desmistificar, dois processos implícitos na sua obra poética. E inteiramente consciente o (re)criar ou, ao observá-lo pronto, você própria se surpreende?

O mundo contemporâneo primou por aperfeiçoar a desmitificação à antiga e criou outra forma de mitificar, desenvolvida em função de nossa sociedade de consumo. Assim os mitos, em âmbito coletivo, não são mais os pensadores, os grande políticos… e sim algum personagem que possa ser usado para fazer circular tal ou qual produto, elevando faturamentos. As fábricas de mitos se estabeleceram, e sua filosofia é a de criar espécimes descartáveis tipo: que sejam eternos enquanto durar o nosso interesse. O misticismo também sofreu descrédito. A tecnologia tenta explicar todas as coisas, e a racionalidade ocupa os espaços empurrando a postura mística para o ostracismo. Mitologia e misticismo são duas coisas que me atraem profundamente. Não só me atraem como fazem parte do meu dia a dia. O homem, na sua realidade cotidiana, está sempre a utilizar a imaginação para a compreensão de suas frustrações. Dentro da imaginação, criamos nossos mitos, confundidos por mim com: modelos para admirar, tão perfeitos e ideais que naturalmente passam a estabelecer uma relação mística com seu idólatra. Tal hábito traz consigo outros ingrediente que, somados aos já existentes, criam uma cadeia difícil de negar; o mistério, os ritos, a magia, mesclados, nos dão a sensação de transcendência. O estado de transcendência, claro, não é permanente. São momentos especiais surgidos esporadicamente, às vezes estimulados por uma pessoa, uma leitura, uma contemplação, uma melodia.., ou por inquietações, descobertas ou dúvidas do próprio eu. Logo, essa utilização do mítico e do místico em meu trabalho poético não é nada mais do que minha disponibilidade em relação ao assunto, Enfocando a segunda parte da pergunta, eu diria que a coisa mais fascinante na criação é o mistério que ela conserva, mesmo diante de todo o esforço para desvendá-lo. Progride-se, progride-se no entendimento desta capacidade humana mas nunca se chega ao âmago da questão. A impressão que me dá é que a criação é tão poderosa que sua maleabilidade coloca infinitamente sempre para mais longe o segredo a desvendar. Com isso ela possibilita ao criador um aproximar-se de si, um reconhecimento de suas circunstâncias, de suas relações com as diversas instâncias da existência, jamais igualado por outra atividade humana. Tudo isso, no meu caso, acontece durante o trabalho de criação. Eu sou concomitantemente o sujeito produtor e o próprio interpretante. Esse ir e vir, ativo/passivo, me possibilita ao mesmo tempo da construção da obra, a sua fruição com extrema profundidade. As surpresas que dela emanam vão sendo conhecidas por mim durante o fazer. De modo que ao terminá-la termina, em termos, também a minha surpresa. O que acontece após é o deleite, o gozo, diria até, fundamentalmente estético do conjunto.

O grande ritmo sentido na sua poesia senta bem como no seu trabalho plástico lhe confere a musicalidade da respiração. Já se aventurou no estudo de algum instrumento musical? Fale também na herança familiar, no convívio com Mozart, Chopin, Bach, entre outros.

Tenho uma relação estranha com a música. Ela não faz parte, de maneira nenhuma, do meu ambiente de trabalho, quando escrevo. Tenho necessidade de silêncio e solidão, do não som para criar. A música, ela nunca foi fundo para alguma coisa na minha vida. Quando ela está presente, ocupa o lugar principal. Não sei se porque meus primeiros contatos com ela foram de fruição total…sei lá. Ouvi, desde pequena, minha mãe tocando piano e fui ensinada que quando alguém toca um instrumento deve-se o máximo respeito. Respeito simbolizado pelo silêncio e atenção que dedicamos à circunstância. Assim, no silêncio ouvi Bach, Mozart, Chopin, Beethoven. Assim também, a partir dos 7 anos, aprendi a tocá-los. Ouvir música para mim é um ritual, entre outros na minha vida. E preciso concentração, local especial e … silêncio, tanto quando ouço música gravada quanto ao vivo. Destas duas modalidades, prefiro ao vivo, pois nada substitui a presença humana e o magnetismo que se estabelece durante as criações e as interpretações artísticas.

Como foi que você escolheu a Arquitetura, sendo de tal maneira multifacetada? Seria esta a profissão globalizante?

Escolher uma profissão é algo sumamente difícil. Tenho pena dos jovens obrigados a uma definição tão importante com tão pouca idade, pois me lembro do que passei. Escolhi Arquitetura, depois de haver pensado em Química, Medicina e Artes Plásticas. Em cada uma das tentativas há influências: A Química, de uma professora que eu admirava muito, a Medicina por causa de meu pai, as Artes Plásticas, por causa de Van Gogh. A Arquitetura, através de meu ex-marido, que me auxiliou a ver que tal profissão seria a reunião de todas as minhas tendências artísticas. Não poderia ter sido melhor escolha. Adquiri com a Arquitetura um entendimento do mundo, difícil de ser conquistado em outra profissão.Com ela percorremos todos os lugares do homem para o planejamento dos espaços habitados, da Filosofia, à Matemática, da Técnica à Estética, da Psicologia, da Sociologia…. O projeto arquitetônico em si é uma reunião de exigências de várias ordens que exercita o indivíduo em um raciocínio simultâneo, sucessivo e de superposições. A forma, o conteúdo, a técnica, reunidas, solicitam o criador a viagens intelectuais e afetivas, a conhecimentos teóricos adquiridos por agentes externos e a conhecimento individuais ou melhor dito ao auto conhecimento. Da reunião destas duas naturezas, razão e emoção surgem propostas de grande força individual e coletiva. Ao arquitetar as minhas idéias criativas uso todo este manancial armazenado nestes longos anos de convivência arquitetônica. Pois o processo da criação se baseia numa metodologia aplicável a qualquer ação expressiva. Os objetivos e a matéria prima a ser trabalhada é que mudam, mas a postura do criador diante do fazer quando estruturado em sua personalidade é chamado, claro que com adaptações, da mesma forma seja quando do fazer arquitetônico, poético, visual ou musical.

Você costuma citar Clarice Lispector ao dizer que a palavra é a quarta dimensão. E a quinta, a sexta, existem?

Para mim, a quarta dimensão é uma força de expressão. Na verdade, o que acontece após a terceira dimensão é adimensional. É um estar no mundo acima do que é palpável. Cito Clarice porque ela soube com maestria externar o que acontece quando é muito forte para o sujeito produtor o seu envolvimento com o fazer criativo. Meu envolvimento com a palavra é uma forma de relação amorosa. diferente da minha relação com as poéticas visuais. Quando trabalho com a palavra deixo que ela me dirija. Os caminhos são surpresas e desvendamentos. Mesmo que eu já tenha algo preconcebido, me entrego a ela. Com a linguagem visual, tudo é mais previsível. Concebo cada trabalho mentalmente e, após o materializo sem rascunhos nem dúvidas. Com a palavra, a tensão criativa se dá ao longo do fazer, com o visual ela se dá antes do fazer. Em ambos os casos, experimento a sensação da ansiedade na busca da solução, seja de um poema ou objeto de arte. Pela palavra, flutuo acima das coisas com emoção e lucidez buscando, durante a feitura, a forma adequada para os conteúdos e, após, o conteúdo ainda não revelado na sua potencialidade oculto pela forma. Das poéticas visuais, busco, durante a feitura, uma aproximação cada vez mais estreita com os conteúdos, exaustivamente eleitos quando do processo de maturação mental. Após sua elaboração, entrego-me à fruição da forma como beleza, na acepção que a palavra tem de mais corriqueiro. A reflexão sobre o estar no mundo e suas implicações com a realidade social, individual… enfim, me parecem condições óbvias, uma vez que é quase impossível desvincularmos qualquer ação humana de suas circunstâncias vivenciais. O envolvimento ou a profundidade de enfoques com estas circunstâncias são de responsabilidade ou de escolha do próprio fruidor, diante do objeto artístico. Por esta razão prefiro falar do outro lado da questão, ou seja, das inquietações ligadas ao ato ou momento da concepção artística, mistério constante para o próprio sujeito produtor e constante desconhecido para os que não vivenciam tal situação.

Retorno à Poesia: em alguns poemas você revela a estreita ligação com o objeto humanizado por sua história; em outros não há inverso, isto é, a reificação do ser alienado por ela. Comente por favor.

Os objetos de nosso espaço vivencial representam para mim um espelho dos indivíduos. A partir da escolha de determinados elementos, o homem se revela. As suas preferências, as suas dúvidas, e sua maneira de ser, os seus desejos, as suas ansiedades, Assim, de elementos inanimados, eles passam a adquirir vida e falam por si dos que o usam. Falo em uso não somente no sentido prático da coisa. Não só na função específica de servir a alguma necessidade material. Por exemplo, um móvel, as cadeiras, as mesas, os sofás servem ao homem no desempenho de ações cotidianas, mas, mais do que isto, estão criando o clima do ambiente que nos vai remeter a seus valores mais profundos. Assim, basta uma percepção aguçada deste cenário para compreendermos o que se passa no íntimo de cada um. Aquilo que queremos resgatar aquilo que não queremos perder, aquilo que gostaríamos de ser. Isto tem muito a ver com a Arquitetura. A partir de meu trabalho arquitetônico aprendi a ler os ambientes e a me aproximar o mais possível da linguagem dos objetos. Assim os contrastes do mundo contemporâneo com os elementos resgatados da história, que estão presentes nas ambiências, fornecem dados sobre a necessidade humana do eterno retorno, da necessidade de manter ligações com suas origens e dos cordões que mantêm com a evolução da espécie. Assim me utilizo dessas imagens também para fazer poemas e tento passar de uma forma ou de outra a simbologia corrente de alguns desses elementos e uma outra simbologia, ai sim criada por mim, destes mesmos focos de inspiração.

Você aponta a decadência de um mundo burguês na eterna ânsia pelo(vil) metal e pelo(vão) consumo. Subjetivo e objetivo se complementam nas poesias. É difícil denunciar o social numa linguagem intimista?

Sabe, Patrícia, não faço nenhuma diferença entre o social e o individual. Pois para mim ninguém consegue ser intimista sem ser social. E quem se diz somente um ser social não terá condições de uma contribuição muito verdadeira nesse campo, pois a socialização passa por uma postura aberta e despreconceituosa, seja dentro de circunstâncias privadas ou públicas. O que faz o artista neste mundo atual, e isso já sabemos, é repensar a realidade através de uma ótica individual, costurada ao pensamento coletivo. Agora, se entendermos trabalho social como aquele que gira em torno somente dos problemas político-econômicos, ou aquele que explicitamente enfoca toda a gama de situações mal resolvidas nas sociedades contemporâneas, eu te diria que as fronteiras entre o artista social e o intimista estariam completamente marcadas. A arte panfletária já teve o seu momento necessário. Hoje quem ainda insistir nesta fórmula será frustrado em sua tentativa de comunicação. E tem mais, um trabalho quando é verdadeiro não persegue rótulos nem fórmulas, prescinde de definições de gênero ou de estilo. A coerência consigo mesmo para mim é fundamental. Quando vejo colegas meus se prostituindo para serem atuais, me entristece. Gente com linguagem própria se travestindo de neoexpressionista, neoconstrutivista, figurativo, abstrato e sei lá o que mais para atender à demanda do mercado, seu marchand ou o crítico que estabeleceu as tendências das pobres gerações…
Minhas mudanças fazem parte do meu processo como ser humano e artista, influenciada é claro por todas as coisas que estão a minha volta, mas assimiladas criticamente e com naturalidade, ou seja, no momento em que se tornam parte de mim e não algo enxertado à força. Retomando a pergunta, eu diria que a denúncia do social não sendo algo premeditado, por todas as razões já reveladas, não me suscita dificuldades, me incita isso sim ao exercício cada vez mais aprimorado de minha visão crítica do mundo.

Acredita que a catharsis criadora é uma tentativa de romper a solidão?

Ela em si, não, mas as consequências sim. Quando criamos, não pensamos no outro. O impulso da criação é gerado pela necessidade que o indivíduo tem em si. Penetrar nas mais profundas esferas do eu é uma aventura que o artista está sempre pronto a fazer, O percurso da criação pode ser comparado a um corredor escuro. Temos medo, e ao mesmo tempo, curiosidade. O artista é vencido pela curiosidade e caminha, com muito medo, pelo corredor. Não sabe se vai encontrar o fantasma, a bruxa, a feiticeira, o lobisomem. Esse não saber gera uma angústia e um estado de tensão inigualáveis. Por um lado, é o medo do desconhecido e, por outro lado, está também em xeque a própria capacidade de enfrentar esse desconhecido e transformá-lo num trabalho artístico. Essa coragem que domina o sujeito criador é que o capacita não só a mergulhar nas águas para encontrar tesouros, como também a usufruir da vida de forma mais intensa. Passada a fase da criação, aí sim começa-se a pensar no produto criado em relação ao outro. Toda aceitação daquilo que se faz é uma aceitação de nós mesmos como pessoas. E quando isto acontece rompe-se com a solidão ancestral, mesmo que por efêmero instante. Após necessita-se de outra oportunidade igual a esta para que isto se repita. Por esta razão, o artista não para nunca de criar, está sempre em busca do impossível pensando ser possível e ad infinitum cria, cria, cria. É estranhamente gostoso fazer isso.

E o outro lado da medalha: o da fruição, como leitora, receptora da obra estética? Quem foram(são) os escritores e artistas que mais a influenciaram (influenciam)?

Mario Quintana diz que nós não sofremos influências e sim confluências. Sei lá, influir é entusiasmar, excitar, inspirar e, confluir é convergir: ponto onde se encontram dois ou mais caminhos. Eu trocaria o verbo influenciar por identificar, pois na verdade acredito que ninguém se influencia e sim se identifica. Identificar-se é encontrar uma parte de si fugidia, um ponto escondido, é reconhecer-se no fazer do outro. Quando estou diante de um trabalho e este me toca a ponto de desejar ter sido sua autora, estabeleço uma forma de identificação, de total admiração. Eu me abandono a ele, e se estabelece entre nós uma relação muito estranha, de certa idolatria. Com os trabalhos de Van Gogh, quando adolescente, foi assim. Algo mágico saía daquelas reproduções, o que eu tentava absorver e não conseguia. Que eu tentava assimilar, que eu vorazmente engolia. Depois apareceu Gauguin, muito mais ameno, repousante como o verão, e Dali, com seu perfil de Velasquez, perspicaz e exigente; Um Caravaggio e seus claros e escuros; um Michelangelo e sua anatomia lasciva, um Dürer, um Bosch. Todos eles encontrados entre propagandas de remédios e matérias médicas da revista italiana Rassegna Médica que meu pai recebia sistematicamente. Os escritores chegaram às minhas mãos através de uma coleção da Editora Globo com autores das mais diversas procedências: Dürematt, Graham Green, Somerset Maughan. Erico Veríssimo, Alberto Morávia, e de uma coleção de livros da Madame Delly, dada por uma tia. Cecília Meireles eu vim a conhecer com um professor de Português e o primeiro poema lido foi Sugestão. Ai depois veio Gregório de Matos, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Florbela Espanca e assim por diante, Mas eu acho que o que mais me influenciou, aí sim, para que eu abraçasse a atividade artística foi a convivência com pessoas que tinham como valores para as suas vidas este aspecto da liberdade criativa canalizada para as formas de expressão artística. Me lembro de uma professora de arte, Dona ZelIy, que desenhava, escrevia poemas e apreciava ópera. Sua irmã, Dona Gessy, com a qual mais tarde vim a estudar pintura a óleo, era casada com um pintor, e eles me transmitiam um clima de prazer pela vida não encontrado nas outras pessoas que eu conhecia. Agora relembrando estas passagens da minha adolescência, diria que foi mais em busca deste prazer que eu escolhi a arte. Não sei, me dá a impressão que se vive com mais intensidade as pequenas coisas do dia-a-dia, ou transformamos estas coisas em grandes acontecimentos, sem necessidade para isso, de condições materiais, somente com nosso poder pessoal.

Eliana Pibernat Antonini, excelente crítica e prefaciadora de Amenas Inferências destaca a importância, na sua poesia, das construções paradigmáticas, intertextuais, remetendo a uma competência de inúmeras leituras. Você escreve para um leitor modelo? Antimodelo?

Como já disse anteriormente, escrevemos num primeiro momento para nós mesmos, daí reconhecemos ter um modelo: o que somos. Pois só desta forma o texto pode ser verdadeiro. Após, testamos o texto e, se ele comportar a leitura de sujeitos com universos diferentes do nosso, terá validade. Ser fruído por pessoas que transitam pelos mesmos caminhos que nós é ótimo, mas mais gratificados ficamos quando alguém que nada tem a ver com nosso repertório faz um comentário sobre o que fazemos, dizendo o que sentiram, o que viram, o que gostaram. Assim é a obra de arte, sem objetividade nenhuma, inexata e ambígua. Eu entendo a obra como um elemento dual por natureza, e fruto de um processo de criação que nada tem a ver com o processo de fruição a que está sujeita, O próprio autor, às vezes como leitor, interpretante, estranha o objeto criado, pois o mesmo guarda fidelidade com seus princípios por um espaço muito curto de tempo.
Escrever para mim não comporta projetos. É uma aventura e o que depois será feito com o texto, uma incógnita. Sou uma espectadora de mim mesma.

Basicamente coerente, a incoerência do seu texto transporta o leitor para o mistério do ser/não ser, do tudo/ nada, do amor/dor. Como sente esta visão de uma leitora nem modelo, nem antimodelo?

A visão desta leitora já me fez pensar, repensar, meditar e redescobrir uma das coisas mais interessantes que já fiz até hoje: esta entrevista. Como eu acho que tudo na vida só tem razão de ser durante, quando algo me dá prazer procuro prolongá-lo ao máximo, pois tudo é ou não é e na verdade não existe meio termo. Entre o ser e não ser está o exercício da vida, lugar das questões dos extremos. Entra-se no trem, senta-se na janela e vê-se a paisagem, as planícies, o mar, o gado, as montanhas, enfim, viaja-se. A minha vida é uma viagem entre os extremos. Os desembarques nunca são encarados como o fim e sim a escala que me levará a outra parada, que não será ainda o fim do caminho. E assim por diante. Definições o dicionário nos supre. O que precisamos ser é um universo de possibilidades, no sentido de nossa maleabilidade para mudar, revisando as mais simples convicções, as mais definitivas verdades. Percorro, ou melhor, tento percorrer, todas as cores do caminho.

Você. também estudiosa da semiologia, que me diz deste trecho de poema (seu): …e a ambigüidade/que encurrala a palavra/ libera quem dá à palavra/ novas temperaturas! Por isso transito do sensato ao absurdo! através do entre de um e outro?

Patrícia, vou te responder essa pergunta como uma complementação, ou uma variação das anteriores, pois ela gira em torno da mesma questão. Aqui falo então sobre a paixão. Estar apaixonado é um estado de espírito que até me fascina, mas que estabelece para o sujeito invadido, uma cegueira em relação a outros aspectos da vida, o que me faz cautelosa. Para saber-se tal segredo precisa-se ter vivenciado a sensação obsessiva dos limites mitológicos. A partir daí, quanto mais espaço houver para versões, mais se pode exercitar a livre apreensão do mundo. Sem o peso da parcialidade predeterminada, o corpo e a mente se encontram receptivos a todas as oscilações do dia, a todos os contrastes, como as cores primárias da palheta do artista; importantes além de tudo por serem o ponto de início para o encontro de muitas tonalidades. Nos limites nos saturamos, Importa sempre mais, é a sensação de incompletude que paira sobre a criação. A sensação da busca do que nem se sabe ao certo, Importa é o fazer, que parece completado a seu término, mas que traz consigo outras formas de ser que gerará outras, e mais outras, e mais…



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