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Entrevista ao DAFA | 1997


Liana Timm, partindo do pressuposto que não é possível esquecer o passado, principalmente aquele que registra as coisas boas, é que buscamos reviver a passagem dessa artista pela transitoriedade do cenário acadêmico, onde todos somos atores, vezes na tensão do papel principal, ora omissos deste monólogo onde todos protagonizam o que não sabem interpretar: a universidade.

 

Liana, você trocou de caminhos ou escolheu vários deles? Qual é o seu estilo?

Não, não troquei de caminhos, acolhi vários caminhos ao mesmo tempo. Esta característica, eu a adquiri quando ainda criança e vejo que ela não se afastou de mim. Mas isto não é visto com bons olhos por alguns pois o corriqueiro é a pessoa eleger um tipo de atividade e permanecer nela a vida inteira. Meu jeito de ser quer a diversidade, o olhar múltiplo, as várias abordagens. Estou em constante transformação, em constante renovação. Valorizo mais a experimetação que a segmentação do conhecimento imóvel. Assim constrói-se um universo particular sempre em sintonia com nossa época e circunstâncias. Logo, se formos focalizar a questão da arquitetura eu diria: – Não, não me desviei dos caminhos da arquitetura, o conceito de arquitetura assumido pela Faculdade hoje, é que está desviado de uma formação profissional abrangente. O curso de arquitetura da UFRGS, de uns 7 anos para cá tornou-se restrito, com uma especificidade que prejudica o aluno como futuro profissional .

Tua arte, como defini-la? É um mix de genialidade como tudo que se comporta dentro dos padrões da informática/tecnologia?

Minha trajetória artística, tem origem na infância, mas a forma com que faço minha arte só pôde ser possível pela minha formação como arquiteta. Porque a arquitetura, no meu entender, é uma das profissões que mais enriquecem o indivíduo, pois ensina a sobrepor, superpor, concatenar e coordenar várias exigências ao mesmo tempo. Acho que por este leque que a profissão me apresentou é que ao invés de divergir, eu convergi, conflui todas as coisas para um trabalho onde há esta meta e esta mixagem. É isto que se apresenta mais ou menos neste estilo que vocês falam, quase uma forma de ser, presente no meu trabalho. Tudo isto é realmente um reflexo desta formação tão rica que foi a minha, dentro da arquitetura, no sentido intelectual. Agora, em um sentido mais prático existem certas características, que eu fui descobrindo ao longo do tempo. Principalmente dentro das artes visuais. Tenho já, as minhas marcar de autoria. Seleciono, fragmento, monumentalizo imagens. Valorizo detalhes e crio novos conjuntos. Desconstruo, descontextualizo e atualizo elementos perdidos nos ciclos da existência, resgatando seu convívio para com a contemporaneidade, refazendo assim o fio condutor da história da humanidade. Assim, penso facilitar o encontro de todos nós naquilo que está posto, uma vez que a origem é sempre comum. Então o meu trabalho na verdade quer isto, um encontro de individualidades. Se atinge ou não o objetivo já é outra coisa, porque geralmente quando se começa a trabalhar, o que se busca é satisfazer uma necessidade pessoal, depois sim, se quer atingir o outro. Esta necessidade de sempre estar ligado com as coisas à minha volta e ao mesmo tempo não se distanciar das origens, faz com que eu também procure esta ligação com as pessoas através do trânsito em torno do meu trabalho. Não existe trabalho que não se complete no outro, se isto não acontece ele também não existe. Na verdade quem tem necessidade de criar, seja no campo na arquitetura ou no campo da arte em geral, tem a necessidade de buscar esta relação com o outro.

De que forma a sociedade participa do teu trabalho?

Da mesma maneira com que a sociedade participa de qualquer trabalho. Ela é realmente o elemento básico, nuclear da minha produção, porque nós podemos produzir coisas individuais, mas esta sociedade, esta época em que vivemos é o nosso berço. E queiramos ou não, estamos completamente expostos às suas influências. Uma coisa interessante em relação a isto, é a noção de que o artista é um visionário. Isto já foi uma verdade incontestável mas hoje em dia não é bem assim. Os meios de comunicação têm suplantado em muitas ocasiões a arte, bem como as  tecnologias. A gente vai, ao longo do tempo, entendo que este artista, além de tudo é um sujeito igual ao outros e que portanto também está sujeito às influências globalizantes, como um simples mortal. O artista hoje não é tão individual quanto se pensa nem tão subjetivo (se é que em alguma época o foi), porque o poder simbólico que manipula todas as mentes também manipula a mente do artista. Ele não está de certa forma também isento disso. Então a sociedade participa e muito do fazer artístico. Os olhos, a mente precisam ser vigilantes e críticos diante da realidade massificada.

O que te une a poesia, a artes plásticas e a arquitetura? Alguma delas tem esta força de união ou só o amor justifica este enlaçamento das artes em que atuas?

O elemento fundamental de tudo isto é a necessidade de criar, é aquela questão do impulso criativo. Então, quando a gente tem esta necessidade, isto vai surgindo e se materializando através de diversas expressões. Este é o meu caso. Então há momentos que eu necessito da palavra para externar isto, outro momento eu necessito da imagem, do espaço para externar aquilo. Esta polivalência é a manifestação de um único impulso: o impulso da criação. 
Assim lanço mão de alguns meios, de diferentes matérias-primas, e para cada circunstância surgem produtos  diferentes, originados da mesma fonte.

Como tu vês o design brasileiro hoje? Ele existe ou o que existe ainda não foi descoberto com identidade própria?

O design brasileiro é de alta qualidade, o problema é o mercado que dificulta o desenvolvimento de alguma coisa mais nacional. Depois, estas importações a preços baixíssimos, dá margem a uma valorização do profissional  aquém daquilo que ele realmente vale. Não é um problema do design brasileiro nem do design, é um problema da nossa sociedade, da economia desta sociedade que não privilegia a produção interna, e que problematiza todas as profissões. É também consequência desta situação global em que vivemos, e também de situações políticas e econômicas específicas de nosso país. 
Agora, a questão da identidade é sempre um ponto polêmico. Houve uma época em que se falava muito nas diferença entre arte popular e arte erudita, outra época, no problema da habitação popular do Brasil. Os arquitetos da década de 70 por aí, erroneamente queriam tomar para sí a solução de um problema que em primeira instância é estrutural e lógico, não podiam resolver.
Logo, questões de identidade regional, nacional, universal numa época como a nossa, devem ser focalizadas com equilíbrio. Não se pode perder as características intrinsecas de uma cultura, mas não se pode esquecer as relações que esta cultura precisa estabelecer com as outras culturas. Vejam o caso da internet. Muitos a vêem como um perigo massificante. Entretanto o que precisamos é cada vez mais desenvolver o senso crítico para usufruir de suas facilidades sem sucumbir como sujeitos. Problemas existem mas são problemas oriundos de uma novidade ainda em processo de maturação. A internet surgiu em 1990, só tem 12 anos de idade. Ela ainda vai precisar de um certo tempo para estabelecer outros paradigmas. Mas voltando ao problema da identidade, Nós sempre tivemos este problema desde que o Brasil foi descoberto. Por causa disto não podemos ficar extritamente voltados para nosso umbigo. Isto é uma visão muito restrita. Precisamos ter um conhecimento aprofundado destas coisas, mas não se deixar também apaixonar por elas, sob pena de sofrermos um radicalismo burro e cego.

Teu envolvimento com a cidade continua autêntico no que produzes ou partes em busca de horizontes mais amplos onde a verticalidade de tuas ambições/projetos tenham solo?

O meu comprometimento diria que não é com a cidade, é com o ser humano. Dentro destes anos de trabalho o que mais encontrei foi a dificuldade das pessoas de se relacionarem com a arte. Objeto da elite, reafirmação das classes sociais, a arte não está socializada. E acho que nem é a arte que tem de ser socializada e sim seus meios de produção. Assim cada indivíduo, dentro da sua realidade, faz a sua arte. Assim poderá se comunicar com seus pares, aceitar e compreender a diversidade de outras produções.  A linguagem, o repertório da arte difere de classe para classe. Mas não pensem que pessoas da mesma classe entendem da mesma forma ! Então isto extrapola uma questão de classe social, isto tem origem na história de vida de cada indivíduo. Assim a gente começa a descobrir que quando não se tem um relação afetiva com as expressões artísticas, com os sentimentos, com as experiências, ao longo de nosso crescimento cronológico (da infância à adolescência), nós substituímos esta relação afetiva e sensível pela teoria. Aí aprendemos estas coisas de fora para dentro e quando chegamos na frente de um quadro precisamos da explicação, enquanto que quem tem vivência, se entrega às sensações. Ao longo deste tempo descobri que dentro da relação obra/sujeito, o conhecimento teórico não é o fundamental, o mais importante são os laços afetivos que o sujeito é capaz de estabelecer com a obra, durante o processo de fruição. A disponibilidade emocional, o grau de sensibilidade que ele mobiliza para esta empreitada. 
Estamos numa época em que a razão é o elemento mais chamado, pedido, evocado para a resolução de problemas. Felizmente conscientizou-se também que a razão sem a emoção é nada e que a qualidade da inteligência depende de nosso desenvolvimento emocional. A arte aqui, entra para quebrar esta frieza e esta impossibilidade das pessoas de usufruírem da vida de um modo diferente. 
Pessoas do terceiro mundo não conseguem ter acesso a coisas que estão no primeiro mundo, ou que estão fechadas em lugares inacessíveis.  As reproduções, por esta razão, tornam-se fundamentais no processo de aproximação  da arte com a comunidade. Fiz um trabalho tendo como pano de fundo as gravuras  do acervo do Metropolitan-NY. Pouquíssimas pessoas as conhecem e não têm acesso a elas. Então, com materiais extremamente baratos, reproduzi algumas destas gravuras com tecnologia corriqueira e as monumentalizei. Nestas imagens se apercebe e se descobre um novo universo. Procuro, além de focalizar certas temáticas que me fascinam, trazer à tona outras coisas que estão completamente distanciadas do homem comum e de todos nós. Então a cidade, no caso, fica sendo o lugar geográfico onde as coisas acontecem e logicamente este lugar geográfico em muitos momentos foi trabalhado por mim de uma forma muito estreita como: a valorização do rio Guaíba, o trabalho com todos os faróis do Rio Grande do Sul, o trabalho sobre Mário Quintana, sobre o Castelo de Pedras Altas, Cyro Martins e mais recentemente sobre a Fazenda Barba Negra.
O circuito de comunicação entre uma obra e um  fruidor é  sempre  satisfatório se o artista não deseja que ele seja à sua semelhança. As pessoas enxergam com os seus filtros aquilo que elas podem, aquilo que ela querem, aquilo que elas conseguem. E isto basta e é isto que é importante. 
Agora, não tem nenhuma validade a expectativa do artista, isto não importa. No momento que o artista termina de fazer o seu trabalho, este não é mais dele, adquiriu outra dimensão: aquela de quem o vê. Então sempre será satisfatória até a afirmativa: não gostei. Porque às vezes quando estamos em frente de alguma coisa e não gostamos, primeiro pode ser por desconhecimento, segundo porque a coisa tocou numa série de questões pessoais e particulares que não estamos dispostos a contactar  no momento. Mas não gostar também é válido. A obra de arte não é feita só para ser gostada, ela é feita para instigar. 
Então eu acho inclusive que alguém sem conhecimento sobre arte até pode usufruir dela de maneira muito mais livre, porque estará enxergando a obra de arte com muito mais abertura do que alguém que já vem com as idéias preconcebidas. Mas veja bem, a teoria em sí não é o diferencial, são as realidades de cada um agindo sobre esta teoria. Uma pessoa sem conhecimentos teóricos terá uma abordagem mais ingênua, ou se quizermos, mais intuitiva que outra preparada teoricamente. Só isto. Tudo vai depender das necessidades e exigências de cada um.

Participas de algum grupo de ação, ou para você isso já era? Qual a sua opinião… o Salvarte por exemplo?

Não gosto muito de grupos específicos, eu trabalho mais no macro. Meu enfoque político é mais abrangente: é a questão do indivíduo situado dentro da sociedade, seja ele artista, balconista ou arquiteto. É dentro disto que eu atuo. Claro, há momentos em que ações de classe são necessárias, e não me furto a elas. Já fui presidente da Associação Rio-Grandense de Artes Plásticas Francisco Lisboa, e naquela época haviam muitos movimentos, era uma época muito politizada e isto derivou para um outro agrupamento de pessoas também importante que se chamou Movimento Gaúcho em Defesa da Cultura. Este movimento, entre outras coisas importantes, lutou pela não demolição do Gasômetro, hoje transformado em Usina Cultural. A história do Espaço Cultural Fernando Corona é de uma época em que a faculdade ainda tinha uma visão mais abrangente da arquitetura e formava profissionais com cultura geral.  Na época se montou com o então diretor, o arq. Albano Volkmer uma sala de exposições permanentes onde os alunos podiam expor seus trabalhos e a comunidade também. Queríamos levar para dentro da faculdade uma movimentação, parecida com a movimentação que eu conheci quando estudante de arquitetura. Fazíamos coisas sensacionais em termos de música, literatura, artes visuais. Era uma época intelectual muito efervescente. Eu participei disto intensamente.  Então como a faculdade estava assim, num remanso, ninguém fazendo nada e o ensino ficando cada vez mais específico, a gente bolou este espaço. 
Sabíamos, por experiência profissional que uma formação voltada para a especificidade é muito negativa. Um profissional competente precisa de uma formação que contemple várias áreas do conhecimento pois a solução de projeto passa por muitas instâncias que não as unicamente técnicas e arquitetônicas. As simbólicas, têm um peso fundamental na concepção de projeto. Falei então com meus colegas artistas plásticos, sobre o projeto do espaço cultural, e eles prontamente começaram a doar obras para a constituição do acervo da Faculdade de Arquitetura. Artistas importantes fizeram parte deste acervo. Abrimos então o ECFC com 60 obras de artistas gaúchos e fizemos muitas exposições importantes, bem como encontros e uma série de animações culturais. Isto durou a gestão do Albano, que teve sempre um jeito especial de entender as coisas. Depois disto, em vez de valorizar o que havia se constituído num espaço cultural, a faculdade passou a dar cada vez menos importância a este trabalho. 
Quando me desliguei da Faculdade, o acervo e o espaço, que já não contavam com nenhum apoio da direção, foi largado às traças. Em péssimas condições, com obras roídas, cheias de manchas de umidade e num descaso total, elas enfim foram assumidas pelo Museu Universitário por iniciativa da colega Rita Kessler então chefe do Departamento de Expressão Gráfica, a única pessoa que entendeu o que representavam aquelas obras no contexto da Faculdade e deu um direcionamento, senão ideal, pelo menos digno à iniciativa. 
O acervo de peças da arquitetura brasileira constituído pelo Prof. Júlio Curtis também teve o mesmo destino: descaso e total desvalorização. Nem sei o que é deste acervo hoje. Estas coisas me deixam muito mal, prefiro nem saber ao certo o que está acontecendo. E não é preciso muito para se imaginar que tipo de formação um aluno está tendo hoje, pois são o reflexo do meio em que convivem 
Os problemas gerais da Universidade também contribuíram para que as pessoas perdessem o élan pela docência. Mas isto também é relativo. Frequento outras Faculdades da UFRGS (Educação e Psicologia por exemplo) e tenho o maior respeito por estes docentes que apesar dos deserviços prestados pelo Governo à Educação Superior Brasileira estão alí, com a mesma garra e convicção exercendo a sua tarefa com dignidade. Acredito que estas transformações ocorridas na estrutura do currículo da arquitetura não tenham mais volta. Pois o curso hoje vive um momento conceitual muito pobre, um momento muito complicado de estreitamento.

Qual o paralelo que você imagina entre uma Porto Alegre e outra Nova Iorque latino-americana?

É impossível a gente ficar sob a influência restrita de uma cidade, isto não é salutar.
A cidade de Porto Alegre nos remete aos italianos, aos alemães, aos portugueses, nos remete a outras culturas. Elas estão representadas na arquitetura da cidade com muita força, principalmente a dos alemães. Junto a isto sofremos a influência de nossas origens índígenas, da nossa formação cultural e das nossas preferências, e tudo isto se mescla no nosso trabalho.  Não trabalho restrita à cidade de Porto Alegre. Porto Alegre é o lugar onde moro, é minha referência geográfica. Muito do meu trabalho se alimenta da cidade. Certamente. Figuras importantes da cidade, trabalhos importantes, produções importantes, fazem parte da minha cultura enquanto sujeito de criação, mas eu também tenho um manancial de formação que fica mixado a isto aí, mixado completamente. Estes conhecimentos. que se integram ao fazer precisam sofrer um processo de assimilação. Não são paraquedistas que arrecado sem critérios nem convicção. Nunca vejo com bons olhos certas influências imediatistas assumidas por alguns, porque sei a importância de um processo na construção de transformações e aquisições. Não sou adepta do artificialismo. Eu não teria condições de fazer um trabalho desta forma. Até uma vez aconteceu algo muito interessante no meu atelier e que pode retratar isto aí. Tinha um marchand que trabalhava com a minha arte no Rio de Janeiro. Ele veio aqui e fez uma seleção de trabalhos para uma individual. O meu trabalho é fortemente figurativo. Em alguns momentos até misturo elementos abstratos mas a figura predomina. Então ele veio e selecionou um número de trabalhos e levou pra lá. Na minha individual, que aconteceu lá,  ele vendeu algumas obras e as que sobraram mandou de volta, depois do término da mostra e qual a minha surpresa: havia um díptico cuja primeira parte era o David e a outra a Aurora de Miguel Angelo. Unindo as duas figuras tinha desenhado umas baias de gelo com uns canos que começavam num lado e terminava no outro. Pois o marchand vendeu uma parte do díptico e a outra me devolveu. Ou seja estragou o trabalho pois seu interesse era única e exclusivamente a comercialização da arte. Este marchand depois de alguns anos voltou ao meu atelier me convidando para mais uma mostra. Só que agora, ele avisava estar trabalhando exclusivamente com abstrato. Bom, respondi, então não é aqui o lugar para buscares as obras!. Eu não trabalho com abstrato. É que na época, para privilegiar a parte comercial com o boom do abstrato ele trocou rapidamente a linha da galeria. Isto é uma coisa complicadíssima. Tanto artista como marchand, conforme a onda, trocam a linha do trabalho. Isto acontece porque os artistas pensam depender dos marchands.  Se eles pensarem um pouco vão ver que são deles que os marchands dependem. O que os marchands vão vender, se não tiverem o produto? Nenhum marchand consegue consagrar um artista se a obra não tiver alguma qualidade. Até pode fazer uma badalação com o artsta durante um tempo, mas depois isso morre. 
A consolidação de uma carreira artística se dá – olha não é fácil dar um tempo determinado – talvez após uns 25 anos de muito trabalho. Antes é difícil. O trabalho ainda não ficou consolidado e o artista ainda não é dono de si mesmo. Quando o Iberê completou 70 anos e mais de 40 de arte, sim, se pode dizer que era um artista na acepção da palavra.

Qual a tua participação/motivação com os projetos de revitalização urbana que se planejam para a cidade?

Eu não tenho nenhuma participação concreta nisto aí, minha participação é como cidadã da cidade. Eu acho que é excelente, maravilhoso e espero que as verbas destinadas aos projetos apareçam, porque tem alguns já aprovados e até agora não iniciados. Isto aí é uma situação estranha até. As pessoas se perguntam porque tantos concursos, se nada é executado?

Que aspectos foram valorizados por você durante a docência na UFRGS?

Eu dentro da UFRGS, na Faculdade de Arquitetura, fui uma das únicas professoras que passou por quase todas as disciplinas do Departamento de Expressão Gráfica.  Comecei como assistente na disciplina de  Desenho Técnico. Este início foi  muito traumatizante para mim.  Mesmo assim fiquei  três anos na cadeira, até que um dia falei  para o chefe do DEG : – Vocês me colocaram em uma disciplina que não tem nada a ver comigo, vou pedir demissão. Aí me passaram para Estudo da Forma I. A partir de então comecei a ter prazer em dar aula. Lá se trabalhava com as questões urbanas e de análise da paisagem construída. Isto me trouxe muitas satisfações. Depois também dei aula em Estudo da Forma II. Em paralelo comecei a trabalhar nas disciplinas de Representação Gráfica I, II e III. Lá se fazia todo uma orientação dentro da linguagem gráfica. Se partia do be-a-bá da linguagem e se culminava com comunicação visual, design gráfico, programação visual. Esta disciplina, a de Representação Gráfica III foi banida do curso depois de 96. Uma perda irreparável na formação do estudante, uma atribuição profissional, negada pelo próprio curso, que abre diversos leques profissionais. Uma área de atuação profissional também sempre relegada ao ostracismo é a da Arquitetura de Interiores. Os arquitetos formados até 90 ainda tiveram um aprendizado mais completo. Puderam pensar a arquitetura como um campo de trabalho abrangente e com diversas frentes. Puderam escolher fatias de trabalho diversificado. Isto ia ao encontro das necessidades do aluno, hoje pelo relato que me têm feito arquitetos recém formados, vai de encontro às possibilidades profissionais. 
Mas na minha atuação docente o que gostava mais de fazer era orientar os alunos em como se pode inventar um jeito particular de pensar criativamente, como se pode inventar um jeito particular de organizar o pensamento. Isto surtia alguns bons efeitos quando realmente a pessoa conseguia criar um método próprio de trabalho, que lhe possibilitava resolver qualquer problema e consequentemente estar pronta a resolver também problemas específicos. Assim calcava minha performance na tentativa de mostrar a importância da adquisição um método de raciocínio que funcionasse diante de qualquer problema arquitetônico. Logo, principalmente a RGIII, no meu entender, estava no lugar errado dentro do currículo. O aluno chegava nela muito verde e despreparado, sem saber direito o que era a profissão, e logicamente os conteúdos ali abordados. Mesmo com um rendimento excelente acho que os alunos aproveitariam muito mais a disciplina se ela estivesse num lugar mais avançado do curso. Mas isso é passado, hoje esta disciplina nem existe mais.  
Agora, digo uma coisa para vocês:  fazer arquitetura não é fácil não. Ela mexe, como eu disse, não só com as coisas racionais, mexe com uma série de situações do universo particular de cada um. Ela exige maturidade. Uma parte dela só se adquire com experiência. E a gente vai ao longo do processo, amadurecendo junto, e quando se entra muito novo na faculdade este amadurecimento é deveras sofrido. A figura do professor, ela fica misturada, ela fica mesclada com outras coisa ainda não bem resolvidas. Resultado, acontecem projeções em cima do professor que são inadequadas, dificultando o trânsito do ensino. Como eu pegava o aluno no começo, pensei: – Puxa eu tenho a possibilidade, ao longo deste meu tempo de experiência, de transmitir um manancial de coisas acumuladas dentro de mim. Mas o aluno não conseguia captar os conteúdos, em toda sua extensão, pois não tinha ainda uma base sólida para receber aquilo. Então, os três primeiros semestres são semestres muito conturbados. Não existe tranquilidade para o aprendizado. O aluno só pensa em passar de semestre. Localizar estas disciplinas no fim do curso geraria outros problemas; na comissão de carreira, com os outros departamentos, que não entendiam por ironia, exatamente que tipo de conhecimento era aquele que estava sendo ministrado. 
É assim que as coisas vão se perdendo. Os alunos, me parece, hoje tem menos ferramentas de raciocínio que há tempos atrás. O que quero dizer é que para usufruirmos plenamente de toda a tecnologia, do computador, precisamos de um bom desenvolvimento de nosso raciocínio abstrato. A imaginação é auxiliada, quando explicitada através do desenho, a buscar alternativas, estabelecendo com a linguagem um circuito de pensamento projetual.  A rapidez do desenho suplanta qualquer programa gráfico, em nível de raciocínio. Claro, isso se você aprendeu a desenhar. Pois o fato de você usar a mão como veículo de deslocamento do pensar, como ponte de um diálogo, gera uma usina de idéias. O desenho é uma técnica de representação rápida, ágil e simples. Em qualquer pedaço de papel  você pode desenhar. Pode pensar desenhando. É esta a função do ensino do desenho dentro da formação arquitetônica: uma forma de raciocínio criativo e de troca de ideias. Este desenho, em nível de croquis é a linguagem mais adequada para o arquiteto. Não exige talento, é uma técnica, Por esta razão nunca fui a favor de sacrificar os alunos no aprendizado da aquarela. A aquarela é uma técnica específica de alguém que sabe pintar. Ninguém vai precisar saber aquarela para ser um bom arquiteto, para projetar bem. Existem meios  mais simples para se estudar a cor nos projetos. Estas distorções de currículo se arrastaram por décadas e décadas, e absorveram o tempo das pessoas.
Tem uma coisa que eu aprendi com o sociólogo  alemão KARL MANNHEIM. Ele afirma que o regime mais injusto é democracia: por exemplo nós temos 20 pessoas discutindo um assunto.15 das 20 pensam iguais, logo prevalece o pensamento da maioria. E as outras 5? Terão que assumir o pensamentos das 15 como se fossem seus, mas só que ficam completamente infelizes porque aquilo não é o que elas queriam. E as vezes a maioria não tem a razão, não é sempre que a maioria tem a razão, e neste sentido a democracia é muito injusta. Então as pessoas fazem votações sensacionais e as minorias ficam sempre com os seus problemas. E a minoria normalmente mexe, transforma, transgride, a minoria assusta, a minoria não é neutra, ela tem coragem, e a maioria não gosta de nada disto, a maioria mata a minoria.

É possível sentir nesta Faculdade? O quê?

O sentir é mais individual. Todos tem a capacidade de sentir e ultrapassam e anulam as coisas negativas. Hoje em dia a gente pensa no coletivo, mas está sendo muito importante o individual também, porque o coletivo causa muita frustrações e o investimento individual contrabalança. Não é uma questão de egoísmo e nem de egocentrismo, é uma questão de sobrevivência. É para que se sobreviva dentro deste coletivo selvagem, deste coletivo pouco sensível. É muito importante que se cultive as qualidades individuais, as potencialidades individuais. E assim a gente consegue passar por tudo isto e até neutralizar um pouco, tudo isto que acontece .

 Qual é/foi sua grande paixão profissional?

A coisa mais fascinante para mim é o trabalho com a palavra. Eu não sei porque, mas acho a palavra  reveladora. Nós desde sempre usamos como linguagem comunicativa, a palavra. Claro que os sentidos são muito importantes, mas sei lá, eles ficam mais dentro de cada pessoa. Claro que através do corpo nós também podemos nos comunicar, mas este também fala, começa a falar, eu acho que isto está muito introjetado no homem. A palavra é uma coisa fascinante pra mim. É ela que dirige meus pensamentos. Eu me deixo mais levar pela palavra. A imagem, para mim, é simples. Eu domino mais a imagem, controlo. A palavra não. A palavra não apresenta condicionantes notoriamente racionais ou emocionais, a palavra me leva pela razão e pela emoção, ao mesmo tempo que consigo encaixar suas condições ao projeto que estou trabalhando.

Que alunos seu verde pintou que não foram da sua cor?

Quem não me conhece e me vê pela primeira vez dando aula pensa que sou rígida. Meu objetivo sempre foi tirar do aluno o máximo. No começo eles não entendiam mas aos pouco iam se familiarizando com a minha filosofia. Meu processo de ensino-aprendizagem sempre levou os alunos a resultado surpreendentes por uma simples razão: nunca comparei um aluno com o outro e sim o aluno consigo mesmo. Assim analisávamos a evolução de individualidades excluindo de todas as maneiras a competitividade. A satisfação de ver a seqüência de uma evolução gradativa é motivo de muita satisfação tanto para professor quanto para aluno.



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