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Entrevista a Maria Helena Martins | 2009


ÂNGULOS E RECORTE INUSITADOS NA OBRA DE LIANA TIMM

Ângulos e recortes inusitados de fotos trabalhadas digitalmente, com imagens sobrepostas que desencadeiam diálogos nas e entre as telas/painéis(?), instaurando-se a metalinguagem. Assim se rompem expectativas de leitura linear e o espectador se vê envolvido nessa atmosfera entre onírica e real, de passado atualizado pela técnica e pela composição metalingüística, ora levado à identificação ora ao estranhamento.

Seria essa uma leitura possível de A ARTE DIGITAL e a NOVA FRONTEIRA? Por quê?

Todas as leitura são possíveis. A arte tem esta abertura. Cada fruidor interpreta à sua maneira o que o artista expressa. Minha curiosidade sempre está direcionada a penetrar o mais fundo possível em qualquer superfície que se apresente. A realidade e o onírico nesta ação se misturam e fazem passar para segundo plano a importância da definição de qualquer fronteira. Não me detenho a separar estes dois estados humanos uma vez que experiencio cotidianamente o revezamento da vida objetiva com os sonhos. Minha arte busca a sensação do inusitado, do nunca visto, do singular, de uma descoberta, Mesmo que esta descoberta não esteja cem por cento impregnada de originalidade (mesmo porque isto não existe) mas que tenha o poder de desestruturar e obscurecer o conhecimento prévio de quem a vê. Para tanto é preciso disponibilidade, portas abertas à percepção. Desejo de estabelecer uma troca com o objeto artístico, que se dá através de um distanciamento com o conhecido. Desta forma, nesta nova dimensão, estabelecemos um outro tipo de relação: a relação estética.

Na visão de Jacob Klintowitz, o enigma de tua iconografia está na inserção do submerso e noturno ao território solar. Como lês essa afirmação?

Me parece que, nós artistas, buscamos explicitar e iluminar o submerso, o subterrâneo, a metáfora, ou o nome que se queira dar a este mundo invisível que nas obras se materializa. O que me pareceu surpreendente é como havia me esquecido desta tentativa, nesta série. Pois quando trabalho, meu estado natural é de distanciamento do cotidiano e do fazer enquanto consciência. Assim, não é retórica quando afirmo que a cada produção me sinto uma iniciante. O estímulo para a criação nos pega num despreparo tão inacreditável que repetimos o processo do aprendizado todo de novo. Como uma criança que nasce, dorme, come, depois engatinha e anda, cai e depois correr. Acho que por este detalhe, além da necessidade de produzir, nos sentimos atraidos pela arte por esta possibilidade de renascer a cada obra que se inventa, nos reinventando junto com ela

Essa Nova fronteira indica um limiar. Técnico? Temático? Criativo? Existencial?

De cada um e todos um pouco? Posso até pensar um pouco diferente. Em vez de nova fronteira, diria, dissolução de fronteiras onde estas questões encontraram um sitio comum de relacionamento pois, eles formam um sistema, uma rede tão intrincada que me é impossível separá-los. Participam do espaço da arte e da existência.

biografia visual de Cyro, o transfigurador do óbvio, a trajetória espaço temporal em Cyro, o Conciliador de extremos e a exposição atual comporiam a Série Paisagens do Interior, metafórica e geograficamente?

Acho que, o processo criativo quando acionado por estímulos, sejam eles quais forem, vai fatalmente vasculhar um repertório autoral. E é a partir dele que se configuram os resultados. Minha produção, mesmo contemplando vários universos se origina de um universo nominado. Logo, sejam quais forem as variações que este universo aprensente, sejam quais possibilidades inventadas por ele, marcas surgirão a apontar para uma individualidade. Por esta razão reconhecemos este ou aquele artista, este ou aquele escritore, este ou aquele intérprete e assim por diante. Me parece que todos, mesmo sem consciência, estamos a biografar a nossa própria história. O pano de fundo de nossas criações são as carcaterísticas de cada época, mas o leitmotiv, somos nós mesmos.

Em Cyro, o Conciliador de Extremos, linguagem visual e verbal se articulam de modo a se iluminarem mutuamente. Como se processa essa criação?

Posso aqui, tentar explicar pela teoria, esta engrenagem. Mas vou responder com a maior sinceridade: não sei. Claro que com 40 anos de estrada, este “não sei” passa para um outro terreno que não o da ignorância ou ingenuidade. Este não sei se comporta com a tranquilidade de quem já se angustiou muito a cada começo de trabalho. A dúvida se impõe sempre, quando diante da tal folha branca não sabemos o que fazer, ou melhor, não conseguimos ou demoramos a dar o primeiro passo. Se antes a ansiedade e a incerteza tomavam conta da minha lucidez, hoje me encontram com a certeza de que, o processo está acontecendo – fora do meu controle – e que se apresentará logo que estiver em condições de oferecer as condições necessário ao seu desenvolvimento. Espero, eu diria, não numa tranquilidade perfeita, mas com o necessário conhecimento da minha dimensão criativa e o mais importante, com o conhecimento prévio das minhas potencialidades

A opção pela arte digital seria uma fase em tua arte ou escolha mais ou menos definitiva? Por quê?

Nada é definitivo. Uma fase, eu diria. Me deparei com ela quase que naturalmente. Não me programei para isto. Quando ví, estava mexendo com tecnologia. Isto foi a partir dos anos 80. Lá vão uns bons 29 anos. Nesta época andavam inventando o revival da pintura. Coisa da moda de marchands e curadores. Ultimamente tenho tido vontade de voltar ao desenho, já tenho alguns projetos pensados. Minha filosofia de trabalho foi e ainda é produzir de acordo com minha coerência pessoal. Me sinto bem assim pois quero minha arte em harmônico diàlogo com as minha idéias sobre a própria arte e a vida. Não faço nenhuma distinção entre estas duas coisas. Sou meio Nitzschiana.



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