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Entrevista a Arnaldo Campos | 1987


Liana Timm: Uma “Viagem Poética” peculiar e emocionante

Como se deu tua aproximação com a arte?

Convivo com a criação artística desde a infância. Meu pai é médico, mas nas horas de lazer ele faz móveis e objetos de escritório. A minha mãe toca piano. Minha avó materna pintava, e eu tive uma tia que morreu tocando O Guarani.

Algum momento inesquecível nas tuas primeiras relações com a arte?

Me lembro de uma história de quando tinha dez anos. Eu morava num apartamento e um dia pedi à minha mãe permissão para pintar peixes nos vidros da janela. E ela me disse “tudo bem, podes pintar”, e então eu pintei e, quando eu voltava da aula e descia a ladeira, via os peixes no espaço. Outra foi a leitura do poema Sugestões, da Cecília Meireles, primeiro poema que eu li na minha vida. Foi uma coisa tão importante que eu fiz uma releitura dele e publiquei no meu livro Amenas Inferências.

Aqueles peixes então revelaram a futura artista plástica. Isso quer dizer que a pintura, na tua trajetória, é anterior à poesia?

Não, são simultâneas. Isto que é interessante. Eu tinha uma professora, chamada Zeli Bellanca, que me dava artes plásticas. Ao mesmo tempo, eu tinha um professor chamado Fernando Miranda, no Colégio Americano também. Esse professor tinha a incumbência de nos ensinar a língua portuguesa, mas ele nunca falou sobre língua portuguesa, ele falava sobre a vida. Eu acho que aliei literatura e poesia com a própria vida, com a força da vida. Foi esse professor que me levou a conhecer Cecília Meireles, Clarice Lispector, Drummond, Manoel Bandeira, Fernando Pessoa.

Algumas poesias dessa fase tu reelaboraste para lançar no livro?

Não, nenhuma. Eram poesias muito intimistas. Eu usava a poesia quando estava angustiada, era assim como uma terapia. Então foi por isso que eu procurei um distanciamento dos conflitos pessoais para uma maior interação com a minha visão de mundo. Foi um processo assim muito mais de amadurecimento e, no momento em que eu me senti em condições de tratar a palavra como vasculha individual e coletiva, aí comecei a pensar em publicar.

A idéia do livro de poesias é recente?

Isso começou a adquirir certa forma em 74, quando timidamente comecei a inserir poemas em meus trabalhos de artes plásticas. Fiz alguns trabalhos sincréticos. Mas em 77 eu vi que não era bem o que queria. Eu queria trabalhar com a palavra como elemento abstrato, elemento fundamental. Comecei a produzir isso em 77, e aí fui até o Trevisan e pedi que ele me desse uma opinião. O Trevisan me mostrou como ele trabalhava e interferiu criativamente em cima dos meus poemas, como se estivesse trabalhando um poema dele. Isso me abriu um campo enorme porque, se até então eu era uma pessoa intuitiva, a partir daquele momento passei a ter uma metodologia de trabalho e entendi que só se consegue o trato da linguagem através desse artesanato. Depois o Trevisan me encaminhou para a Tânia Carvalhal. Ela me mostrou a importância do conhecimento da poesia e me sugeriu disciplinas da UFRGS. Então eu frequentei seminários de criação literária, conferências, palestras. E muita leitura e trabalho sistemático.

Tu achas que o artista tenta recompor seu passado quando está criando?

Sim. A primeira parte do meu livro é um resgate de vivências. A Eliana (Antonini) fala que meus poemas são memorialistas. Tem certas coisas que eu enxergo até hoje. Eu tinha uma tia que fazia uma galinha recheada à moda síria e todo mundo ia para a casa dela se deliciar com sua arte culinária. Minha avó fumava narguilé. Coisas de uma cultura sírio-libanesa que estão arraigadas em mim. Eu sentia uma efervescência de vida naquilo ali.

Tu vês uma íntima relação entre a poesia e a arquitetura?

É claro. A arquitetura é uma forma de poesia. A arquitetura como espaço de vivência diz das pessoas e da própria sociedade, então eu, como arquiteta, entendo que a relação dos objetos, a relação do mobiliário, a relação do espaço tridimensional é um elemento fundamental para entendermos a nossa própria personalidade. Acho que nada diz melhor de ti ou do outro do que penetrares no mais íntimo e mais exterior da pessoa que é o seu espaço de vida.

E a constante relação entre o ser e os objetos que a gente nota na tua poesia?

Sempre tive uma relação muito estreita com os objetos. Eles podem representar as diversas etapas da vida. Me trazem atemporalidade.

E a crítica à sociedade, onde é que cabe na poesia?

Ela está inserida em todas. Isso não se distancia de maneira nenhuma. Como ser social tenho uma visão um pouco irônica e até satírica da sociedade. O título do livro já tem uma carga de ironia. Por quê Amenas Inferências? Ninguém faz reflexões amenas em cima da realidade. Acho que todas elas são muito profundas e muito problemáticas, como diz o Ernesto Sábato.

E, finalmente, Liana, por que escreves?

Pela necessidade do outro. O homem sempre procura uma integração com o outro.

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Dezembro de 1986



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