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Entrevista a Adroaldo Bauer | 2010


Uma Liana Timm por dia

 

Pelo que faz em pintura, em literatura, em design, em cultura, Liana Timmnos orgulha. Pelo que é. Inteligente e simples. Urgente e paciente. Uma mulher que inspira, anima, respira, organiza um tudo e a si mesmo desordena cotidianamente. Viva, é uma nova Liana a cada dia novo que, tal ela sente, se renova à luz da próxima manhã. É o que ficamos sabendo dela aqui, em amistosa e carinhosa entrevista exclusiva pra Revista Fala Brasil!

O que te motiva a escrever?

Qualquer coisa que me toca e principalmente questões existenciais. Uma forma de reflexão sobre a vida, um estranhamento do óbvio, quando este de tão familiar parece cheio de interrogações e mistérios. Desde sempre fui muito reflexiva e gosto das tentativas de materializar os sentimentos, as sensações, os pensamentos. Trocar experiências com os outros e principalmente dialogar comigo mesma. Ou melhor, descortinar o que está na sombra. Me reinventar na escrita ou na imagem e motivar a cumplicidade. Isto surgiu na minha vida naturalmente. Não sei bem quando começou, mas nunca tive dúvidas do que seria. Eu fui sendo e ainda é assim: vou sendo.

Tens editor?

Não. Gosto de autonomia. Isto tem prós e contras, mas acho que mais coisas positivas que negativas. Minha independência acontece também nas artes. O Brasil é carente de agentes e os poucos que existem não são muito acessíveis e o interesse comercial é a baliza de suas escolhas profissionais. No caso da literatura, o gênero menos comercial é a poesia, então, editor para poesia, com raras exceções, é o próprio autor. Isto não é de hoje. Os grandes poetas brasileiros editavam seus livros ou pagavam por eles. Como tenho uma boa trajetória no campo do design editorial e uma grande ligação com a coisa livro, também me dá extremo prazer trabalhar meu próprio livro. A Vânia Falcão, minha amiga e professora de literatura comparada, diz, em tom jocoso, que tudo comigo tem que terminar em livro.

Então, também editas por tua própria conta?

Sim, por minha própria conta. Escrevo e crio o design editorial, assim o livro sai como gosto. E falando em design editorial, este campo é, hoje, no Brasil, de extrema qualidade, mas o que vejo, e me surpreende, é que os próprios escritores não tem noção da importância deste serviço para a valorização de seu trabalho. A estética de alguns livros é assustadora. Muitas vezes me pergunto se o autor não nota que até a fruição de seu texto é prejudicada com um planejamento gráfico daquela natureza. Isto é tão interessante que quando um livro é criado com extremo cuidado estético, passa, aos olhos do usuário, a ser considerado caro. Mas este livro foi executado com os mesmos materiais que outro sem design. Logo a questão é de outra ordem, é cultural. Surpreende-me também a confusão que geralmente fazem entre editora e gráfica. Uma gráfica pode ser também uma editora e uma editora pode ter uma gráfica, mas são coisas completamente diferentes. Tudo isto, acho, dificulta os autores a buscarem caminhos mais independentes para a visibilidade de seu trabalho. 

Sempre foi assim contigo?

Sim, sempre gostei de preservar minha autonomia. Nossa sociedade já impõe tantos comportamentos massificados que vale a pena se autodeterminar naquilo que é o nosso espaço de liberdade: a criação artística. E não entendo a criação somente o ato em si, mas tudo que envolve sua circulação. Por esta razão me ocupo do processo como um todo. Vou do mínimo ao máximo. Quando não tenho competência para fazer alguma das etapas me apoio em outros profissionais, mas a coordenação sempre está comigo.

Como é distribuída a tua produção?

Que pergunta complicada. Isto é o calcanhar de Aquiles de qualquer editora.  Na TERRITÓRIO DAS ARTES editora, trabalhamos basicamente com arte, literatura (poesia e prosa) e ciências humanas. Não é fácil motivar distribuidores para estes tipos de livros. Mas vamos indo. 

Estás na Feira do Livro de Porto Alegre?

Liana – Sim, a Território das Artes está lançando dois livros: Arca Profana e O Dia em que o Sonho Visitou o Sol. A Arca é uma coletânea de textos de vários estilos. Tem poesia, contos e ensaios. Nosso time de autores é o seguinte: Luis Arthur Costa, Tania Mara Galli Fonseca, Cristina Macedo, Dione Detanico, Élvio Vargas, Jacob Klintowitz, Lenira Fleck, José Eduardo Degrazia e Liana Timm (org.) Lançamento em 3 de novembro junto com O Dia que o Sonho Visitou o Sol, livro sobre uma exposição que realizei no ano passado em São Paulo. É escrito pelo crítico de arte Jacob Klintowitz e pela psicanalista Lenira Fleck.

Tua vida pessoal influencia os teus versos, a tua prosa, mesmo que não seja autobiográfica a publicação? Há no que se escreves um tanto grande da alma dos que escrevemos, não é  assim?

Certamente, tudo que escrevemos é autobiográfico mesmo que seja uma autobiografia mágica, para citar Quintana! Estou no mundo de corpo e alma e sofro as influências de tudo ao redor. Sou o resultado do que me afeta e de quem afeto. A obra para ser verdadeira tem que ser reflexo de emoções vividas e experienciadas até a medula. Sou mais emocional que racional então as coisas me atingem com grande intensidade e um dos canais expressivos são a minha poesia e a minha arte. 

E o que escreves muda alguma coisa em ti, na tua vida, no jeito teu de ser?

Acho que me faz descobrir novidades em relação ao mundo e a mim mesma e é lógico que as coisas vão mudando de sentido como consequência das nossas próprias mudanças. Perdem importância, desaparecem e abrem espaço para novidades. Se metamorfoseiam e a gente vai sendo outra a cada manhã. Desconhecer-se é a melhor coisa na vida. É uma renovação constante. 

És natural de onde no planeta terra?

Nasci em Serafina Corrêa. Fiquei lá até os 3 anos de idade e depois minha família se mudou para Porto Alegre e não mais sai daqui.

Qual é mesmo a cor dos teus olhos, ou são de mais de uma cor?

Azuis. Herança da minha vó, de origem árabe.

Fala da tua produção literária, do teu livro que concorreu ao prêmio AGES. Não é o teu primeiro. É o mais recente ou já tens um outro em 2010, ou sendo aprontado?

Bem, comecei a publicar poesia em 1986. O livro que concorre do prêmio AGES é o Água Passante, de 2009. Fala sobre o tempo, uma constante tanto na minha arte quanto na minha poesia. Está no prelo a minha primeira antologia: Armazém de Memórias, a ser lançada em dezembro. Com este são sete livros individuais. Tenho também 19 livros em co-autoria e mais três livros escritos sobre o meu trabalho que são:

A cidade, o estado, o país, as pessoas todas te conhecem como artista plástica. E já te conhecem também como escritora?

Acho que não tanto quanto como artista plástica. Mas espero interessar mais pessoas pela minha poesia. Minha ligação com a poesia é muito delicada. Acho a palavra algo especial e reveladora. Sinto-me vulnerável diante da palavra. Com as arte visuais é bem diferente. As surpresas não são tão densas. Com a poesia estou sempre à mercê de sua vontade. Desprotegida e curiosa. E constantemente maravilhada.

A tua literatura tem a ver com a tua inquietação de pintora? Com a tua tranquilidade de artista plástica? Com ela mesma? Vai ver é o teu texto que influencia a tua pintura e nós não sabíamos… eu não sabia?

É uma influência recíproca. Tanto que muitas séries de trabalhos visuais tem o mesmo título que alguns livros ou poemas. Não tenho a capacidade de um Fernando Pessoa, então sou a mesma Liana que movimenta os mistérios da criação em ambos os campos e eles se entrecruzam. Uma vasculha nas mesmas inquietações, desejos e necessidades.

Tenho um poema que gostaria de transcrever para finalizar este bate papo que diz assim:

 Arte que te quero arte

Arte que te quero toda

Arte que te quero viva

 

Arte não te quero à parte

Arte que te quero vida

 

Arte da vida

Agradecido, Liana Timm



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