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Entrevista a Achyles Costa Neto | 2001


 

Liana qual a importância do desenho na sua vida?

O desenho geralmente é importante na vida das pessoas quando ele começa muito cedo. Me lembro que, mais ou menos aos três ou quatro anos eu já pegava um lápis e desenhava. Algumas pessoas dizem que é difícil a gente ter essa lembrança tão remota. Mas tenho certeza que me lembro de estar sentada perto de uma janela, numa mesinha, desenhando. Então isso me persegue a vida inteira.  Quando me dei conta dessa inclinação ela já estava fazendo parte da minha vida. Na verdade o desenho faz parte da minha vida, e posso contar a minha história também, através dele. Mas hoje, por exemplo, quando me perguntam se eu começaria a minha formação como arquiteta ou artista plástica pelo desenho, eu diria, sim e não. Porque as coisas mudam, a importância das coisas também se relativizam, apesar de  entender que o desenho é um organizador e um propulsor do pensamento criativo, existem outros caminhos também. Não sejamos tão radicais.

Que papel desempenha o croqui no cotidiano do arquiteto?

Acho realmente algo muito importante, porque com todas possibilidades tecnológicas que nós temos,  precisamos entender que a rapidez, aquela coisa expedita está realmente no esquete, onde se tem a velocidade do pensamento. Nenhum computador será tão veloz quanto a nossa possibilidade de passar este pensamento através da mão. Sabemos que todos estes softwares à nossa disposição demandam aprendizado e tempo até chegarmos à visualização espacial necessária.  Então esta questão do croqui, da percepção visual, que no caso é a coisa mais importante que se desenvolve através do desenho, é dado por esta ferramenta que o arquiteto, se dominar, melhor pra ele, se não, terá que buscar em outros caminhos. Porque o arquiteto mesmo tendo a destreza do desenho, ele vai se utilizar do computador, porque hoje em dia não se admite desenhar uma planta tecnicamente, normografar a planta  e tudo mais. A técnica, em si, já é uma linguagem, e essa linguagem logicamente influencia até a concepção.  Por exemplo, a arte contemporânea, tem uma linguagem contemporânea, a gente olha e identifica, tem uma afinidade com a tecnologia, e nela está embutida a sua estética e assim por diante. Através então desses índices é que posicionamos a significação da arte. E a arquitetura não vai fugir disso. De certa forma não.

 Em entrevistas que eu realizei com alguns arquitetos, foi feita a seguinte pergunta: Como você interpreta a maneira gráfica de materializar ideias através de técnicas de desenho e croquis. Qual a sua opinião a respeito disso?

Puxando um pouco aquilo que relembrastes da Lina Bo Bardi, de que a gente pode apresentar um projeto através da linguagem escrita: eu diria que esta linguagem específica da arquitetura, precisa de uma especialização, de um olhar avisado. A gente vê que muitas pessoas enxergam as plantas arquitetônicas, as elevações, os cortes, toda esta linguagem como se fosse uma linguagem grega. As pessoas não enxergam, as pessoas não conseguem visualizar a volumetria, o espaço através destes desenhos. Então acho que isto é algo também para ser pensado, pois a linguagem em questão tem suas limitações e não é exatamente o meio absoluto para se apresentar um projeto arquitetônico. Falando de arquiteto para arquiteto, sim. A gente tem esta condição, entendemos, por força de ofício, estas convenções  e podemos nos comunicar sem a palavra, mas eu não acredito que estes desenhos sejam o melhor meio para fazermos um leigo compreender o que propomos em termos arquitetônicos. Estas convenções são abstrações da concretude, da realização e portanto de difícil compreensão para um olhar desavisado.

Na definição do tema do meu trabalho eu comento que o desenho é um meio e não um fim na obra da Lina? O que você acha disso?

Ah, isso é importante, muito importante. O desenho enquanto meio de comunicação não precisa ser perfeito, o que importa é sua capacidade de comunicação, a sua expressividade. O poder de comunicação do desenho não está no material utizado para a sua confecção. Um bom papel manteiga e um lápis é o bastante para alguém comunicar uma ideia. Há uma falta de clareza sobre o objetivo do aprendizado do desenho dentro das faculdades de arquitetura.  Precisamos adquirir é esta forma espontânea de usar o desenho como tradutor de ideias, como ferramenta de trabalho. Ninguém precisa ser escritor para escrever para  alguém, logo não se precisa ser artista para ter no desenho uma possibilidade de comunicação e criação. Agora, se alguém quiser aprimorar as técnicas de finalização da linguagem gráfica poderá fazê-lo. Mas dentro do nosso metier, dentro da nossa área profissional, o que basta é realmente a possibilidade de nos expressarmos e nos comunicarmos, no caso, através do desenho.

Para você Liana, o que o desenho de criação comunica?

O desenho na área da criação é o próprio raciocínio. Pra mim desenhar é raciocinar. Então na medida que tu…, eu, por exemplo, quando vou projetar algo, preciso da mão pra fazer este projeto. Até posso usar o computador. Dentro do campo do design, eu trabalho muito no computador, dentro do campo da arquitetura, trabalho com croquis para depois passar ao computador. Não projeto no computador, fica um pouco difícil, porque, como já disse, todas estas engrenagens do programa estão muito aquém da rapidez do pensamento. Então tomo o desenho como um método de projeto. Como metodologia do projeto. E neste caso é muito importante alguém poder ter essa ferramenta para trabalhar a qualquer hora e em qualquer lugar. Dentro da minha formação, esse era o  caminho e o adotei. Usar o desenho como uma metodologia de projeto. É assim que eu faço.

Qual sua opinião sobre a técnica das aquarelas. E que importância elas exercem como forma de expressão dentro da arquitetura?

Se a pessoa quer fazer por diletantismo, maravilhoso. Mas a aquarela, para se testar cores e trabalhar dentro do processo arquitetônico, não é a técnica mais adequada. Tem outras técnicas mais rápidas e melhores para serem usar, técnicas que não são tão molhadas, que a gente não corre o risco de virar em cima das plantas, em cima da mesa e tal.

E na época que você lecionava na Expressão Gráfica da UFGRS, se usava aquarela?

Se usava aquarela sim. Aí tem duas questões dentro da arquitetura da UFRGS. Na época em que eu estudava na UFRGS a formação era muito eclética e abrangente. Tínhamos cultura geral, história da arte, sociologia e assim vai. Entendíamos e discutíamos arquitetura como uma ação no social. Hoje em dia os estudantes recebem uma formação muito restrita. Vários conteúdos foram tirados do currículo, restringindo o campo de atuação do arquiteto ao da edificação. A aquarela também desapareceu  pois foi considerada obsoleta e de certa forma é mesmo. Entretanto outros conteúdos retirados não, e com isto houve uma diminuição na qualidade da formação do arquiteto. Não conseguiram entender que o contato e o manejo de certos conhecimentos indiretos funcionam como exercício de raciocínio e acréscimo de conhecimento. Mas voltando à aquarela, quase nunca se usa uma tinta para testas cores ou apresentar uma ideia. No caso, a tinta eu uso nas minhas pinturas, porque ai posso sujar e fazer o que  bem entendo. 

Qual sua opinião sobre os aspectos transparentes, sublimes e vaporosos que as aquarelas nos transmitem?

Os efeitos que se pode conseguir com a aquarela são maravilhosos. A técnica é extremamente sofisticada. O aquarelista tem que ser um preciso manipulador de pincéis, porque a aquarela queima. Então nós temos que ter uma visão e um domínio da técnica muito grande, porque o momento em que você vai com o pincel ao papel, tem que ser exato. Eu procurava, quando ensinava aquarela valorizar o erro, a queima, para tornar mais fácil a técnica. Eu dizia sempre assim aos meus alunos: devemos valorizar o erro, porque com a aquarela é muito fácil de errar. Trabalhava-se mais com efeitos especiais que com a ortodoxia da técnica. Ninguém estava alí para ser aquarelista profissional

Você usava a aquarela em um croqui como a Lina usava?

Não, não, não. Na época que eu estudei, a aquarela era usada só para arte final, não era usada como ferramenta de testagem. Era exigido um domínio técnico que até hoje não sei para que. Mas usado assim (mostrando desenho aquarelado da Lina) é muito mais informal e permite à técnica uma participação no raciocício projetual.  Se formos pensar em termos de técnicas ela está mal usada. Mas se formos pensar em nível expressivo, ela está muito bem usada.

Eu noto que nos desenhos da Lina, ela não passava a limpo, ela apresentava como era concebido no primeiro momento.

É. É porque ela valorizava o processo, mostrando como a ideia se processava dentro da cabeça. Isso que é importante. E hoje em dia ela está mais atual do que nunca, porque a arte conceitual é isto, a valorização de um processo de trabalho. O resultado não importa.

Nas diversas técnicas gráficas de expressão na arquitetura, existe a possibilidade de misturarmos vários elementos, como por exemplo: nanquim/lápis de cor/hidrocor/aquarela e guaches. Como você vê esta mistura de técnicas?

A mistura de técnicas é a melhor coisa para um arquiteto, porque ele não está preso a nada, ele vai poder dar o seu cunho pessoal na própria expressão gráfica. Ele vai fazer colagens. Se não sabe desenhar uma figura humana, ele cola, isto se ele tem a visão de proporção numa perspectiva e tudo mais. Texturas, ele pode colar também, ele pode…..Então eu acho que isto ai pra mim seria o universo da expressão quando alguém quer apresentar uma ideia para o cliente, seja lá pra quem for. Porque nós temos diversas possibilidades, um cara não sabe bem aquarelar, não sabe bem recortar, não sabe bem trabalhar com nanquim, mas sabe trabalhar bem com o grafite ou o computador. Aqui, no caso o que importa é o sentido final disso ai, mas final como expressividade. Este é o caminho mais informal, mais salutar para o arquiteto também não ter aquele comprometimento de ser um grande desenhista. Ai ele poderá ser é um grande arranjador, um criador de soluções mistas inclusive com o computador. 

Gostaria de saber se você conhece, em particular, os desenhos que Lina produziu. Caso afirmativo, o que você teria a dizer sobre eles?

Teria a dizer o seguinte: que ela era uma corajosa, porque ela não ignorava, e até desprezava a cabeça de quem olhava. E isto é fundamental. Além de arquiteta, ela era uma grande artista, porque se ela não desprezasse, ficaria cerceada ao querer atingir o outro e ter receptividade. O desenho de LINA apesar de simples, é muito difícil, ele demanda um olhar muito especial para entender a sua importância e o que ele comunica. Porque ela foge do modelo de desenho arquitetônico, ele é mais artístico que arquitetônico. Porque o que se pede em um desenho arquitetônico, no seu sentido esteriotipado, é que tenha proporção, que seja exato, que as coisas estejam totalmente definidas, que uma janela seja uma janela, o vidro seja um vidro… Aqui o que ela faz: ela trabalha com o ambiente. Olha só isto aqui (desenho da lanchonete do SESC Pompéia), isto tem uma certa ingenuidade, na verdade é um desenho ingênuo. Tem coisas que estão fora de perspectiva. Mas o que ela se preocupava era com a concepção no seu sentido geral. Isso que ela estava querendo fazer passar. E ai ela se iguala a estes grandes maus desenhistas, como Le Corbusier, Oscar Niemeyer.

Em sua dissertação de mestrado você defendeu um tema muito interessante que é a relação entre o desenho e o conhecimento. Você poderia falar um pouco sobre este tema?

Me lembrei deste trabalho porque tu falaste que os alunos procuram fazer os desenhos bonitinhos… Quando eu estava pesquisando para fazer esta dissertação, e eu já tinha há uns anos atrás entendido o problema que os adultos enfrentam, ou seja uma herança da infância. Porque até uns sete a oito anos a gente tem  liberdade para desenhar, então o desenho é mais expressivo, sem nenhuma intenção. Esta expressividade é perdida quando começa a  socialização e os adultos exigem daa crianças – desenhos que se pareçam com seu referente. E ai a gente perde a espontaneidade, e vai em busca daquilo que está posto. É o adulto que faz com que a criança perca a espontaneidade. Depois fica difícil recuperar esta questão. Nós ficamos completamente reprimidos e censurados e ai vamos buscar o modelo renascentista do belo desenho (certinho e perfeito), e se fez a problemática. Ultimamente eu tenho trabalhado muito na recuperação desta questão. E tenho trabalhado com exercícios, que as pessoas ficam muito assustadas em fazer. Desenho cego, desenho com a mão esquerda, mais trabalhando a gestualidade, não se importando com o que está querendo representar, e trabalhando mais os espaços vazios que os espaços cheios. Quando você olha uma escada, você desenha os espaços vazios em vez dos cheios, então tem uma série de exercícios que eu tenho aplicado nuns cursos livres, e isto tem dado resultados interessantíssimos. Para resgatar esta questão e é claro, a gente não resgata isto nunca mais, porque mal a gente para de fazer o exercício, a gente volta ao ponto zero, mas pelo menos o processo de conscientização inicia. E quando se vai procurar, por exemplo, olhar e desenhar  e querer fazer o desenho do objeto que se está olhando – e não se consegue – a frustração ainda é pior. Sempre se coloca entre aquilo que se olha e o desenho, a convenção que se tem na cabeça. Então você olha para aquilo e você tem a escada ou a cadeira herdada que estava na tua cabeça. Você não consegue fazer o trânsito. Ai você pensa que está vendo e desenha uma caricatura daquilo que você pensava que enxergava e continua. Se misturam o objeto real e a convenção do objeto já existente dentro da cabeça  e o desenho sai, novamente, caricatural. O resultado é aquilo que você vê no papel. Dá vontade de rasgar,  por isso as pessoas rasgam os desenhos. Eu acho que a aceitação do seu desenho enquanto limite de cada um é a aceitação de si mesmo. Então vem um outro trabalho, assim dentro do campo da subjetividade, que é a questão desta aceitação dos limites da possibilidade expressiva de cada um. A gente vai sempre em busca da expressão que está fora, o problema é que a expressão está dentro. Ela fazia isto (a LINA) não é. Ela aceitava a expressão que estava dentro. Esta é uma lição a lembrar. 

Olhando alguns desenhos…

É completamente infantil o desenho. Desenhos de doze, treze anos, mas onde estão os ingênuos? Muitas pessoas gostam. É que ela usava os desenhos para raciocinar, a impressão que me dá. Ela tinha isto como um exercício. Ela exercitava o raciocínio através dos croquis. (…) Isto é uma coisa interessante de se mostrar: a ingenuidade da linguagem utilizada não se rebate na obra, porque a obra é sofisticada, tem força, tem vigor, tem história, tem toda uma bagagem. Então a gente pode até mostrar que os desenhos não vão chegar a prejudicar a questão do próprio projeto em si. Aqui ele está informalmente apresentado, depois ela vai fazer seu detalhamento exato para a execução. A transposição da ideia é uma transposição arquitetônica, dentro da linguagem que lhe é própria, ou seja, bem mais brutalizada. Então você vê outra coisa que é um paradoxo. Porque todo aquele clean da arquitetura dela, tinha um making off,  completamente diferente. É  interessante isto. Ela concedia a ela mesma algumas coisas, a gente olhar e vê aqui. A gente sabe que qualquer expressão abre-se ao entendimento do sujeito do fazer, enquanto personalidade. E ela era uma pessoa informal, uma pessoa…. Talvez estes projetos mais rígidos fossem projetos que ela estava atendendo a uma demanda mais profissional que afetiva, e os outros, que ela concebia, tinham uma relação mais afetiva do que racional. Porque isto aqui é um desenho que passa afetividade.  

 



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