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Corpo Vibrátil: psicologia e arte


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA SOCIAL E INSTITUCIONAL

FACES E INTERFACES DA PSICOLOGIA SOCIAL
29 e 30 de novembro/01 de dezembro de 2000
 

INTRODUÇÃO

O convite feito a mim pelo Departamento de Psicologia Social e Institucional da UFRGS, para participar deste FACES E INTERFACES DA PSICOLOGIA SOCIAL muito me honra. Tal afirmativa vem conotada de extrema sinceridade por duas razões: primeiro porque a deferência animou minha afetividade, criando a motivação necessária para tentar, com esta contribuição, tornar prazerosos os minutos que passaremos juntos; e segundo porque o tema proposto ativou minha reflexão para um assunto ainda não totalmente objetivado e abordado por mim, em público.
Conclusão: a vantagem neste primeiro momento está sendo minha. De antemão me enriqueci enormemente com todo este movimento processado pelo estímulo deste interessante convite. Só resta torcer para que pelo menos isso possa servir a vocês, para alguma coisa.

O ÓBVIO CORPO

Quero tentar iniciar o assunto com o menor número de obviedades possíveis.
Entretanto acho um pouco difícil não as praticar. Logo, o que me parece mais plausível será então transfigurá-las.
É obvio que corpo é sinônimo de vida. Nele existimos fisiológica e psiquicamente. É através dele que respiramos: mecanicamente andamos; mecanicamente enxergamos; mecanicamente, enfim tudo que ele nos oferece é usado por nós, salvo raras exceções, assim: mecanicamente. Por essa razão o título da palestra nos pega meio que de lado.
Corpo invólucro, corpo receptáculo, corpo funcional é uma coisa. Agora corpo vibrátil…. é um chamamento de outra natureza. Requer uma parada e o redirecionamento da questão.
Ao pensar o assunto me vieram à mente vários desdobramentos possíveis de serem tomados para desenvolver o assunto:
corpo enquanto suporte da arte
corpo enquanto estética de época
corpo enquanto mercadoria
corpo enquanto fonte de conhecimento
corpo enquanto fonte de prazer
corpo enquanto fonte de sofrimento
corpo enquanto meio de ligação com a realidade
enfim:

diante de tantas possibilidades do corpo, escolhi falar do que me parece mais em falta nessa nossa época: o uso qualitativo do corpo. Mas antes algumas considerações.

A ARTE E O CORPO

É sempre bom que se inicie pelo que se pensa mais saber. Aí me lembrei da arte. A arte se vale do corpo de maneira privilegiada. Temos artes em que o corpo é fundamental pois suporte da expressão. Ele em si é a expressão. As artes cênicas são um belo exemplo deste uso do corpo. Sem ele a dança e o teatro perderiam muito.

No caso das artes visuais, o corpo também é fundamental. O artista pode se servir dele de duas maneiras:
em seu atelier, no momento da produção de alguma coisa artística, usa o corpo como veículo para o fazer e gera algo fora do corpo. Sendo que, após essa coisa estar produzida, o corpo se ausenta da cena – pois desnecessário,  e o objeto produzido vive sem ele. Mas enquanto ele é necessário, o corpo do artista age sobre o suporte imprimindo suas características intransferíveis. Da singela caligrafia à gestualidade de uma pincelada ou de uma interferência de moldagem ou subtração de material, o corpo explicita as características de personalidade do artista. Até o ritmo do movimento desta gestualidade, (lentidão ou rapidez com que o artista trabalha), fica registrado no resultado da obra. O corpo do artista e o material estabelecem uma relação de estreita parceria, criando o espaço onde a significação se estabelece. Um exemplo vibrante desta parceria corpo/ação criativa foi produzida pelo americano Jackson Pollock. Adotando para sua pintura os grande formatos colocados no chão, ele pintava com latas perfuradas que gotejavam a tinta na tela através da gestualidade do braço do artista. Conhecida como all-over essa pintura colocava realmente o artista dentro do quadro e este, durante o processo do fazer, não tinha uma noção global da obra.
Usando o corpo como suporte da arte, à exemplo do papel, da tela, da pedra, temos os adeptos da body art. Aqui o corpo é encarado em sua materialidade – sangue, suor, esperma – para realizar rituais e sacrifícios. Geralmente envolveu o derramamento de sangue e entranhas de animais sobre corpos nus. A intenção destas cenas era destacar a violência do homem e funcionar como uma terapia de choque, porém suas bases éticas eram bastante duvidosas.
Os artistas que se identificaram com esta modalidade artística levaram às últimas consequências a valorização do senso de realidade. Na década de 60 houve excessos, como por exemplo o suicídio em público do artista vienenese Rudolf Schwarskogler de apenas 29 anos, em 1969, num ritual de mutilação do próprio pênis.
Essa linha sado-masoquista entretanto, apesar de sua brutalidade e obscenidade, recupera para a arte práticas que existiram em todos os tempos e em todas as culturas: escarificações, tatuagens, maquilagem, travestimento, etc (Dennis Oppenheim, Bruce Nauman, Lygia Clark). As exposições aconteciam para pequenos grupos e tinham como objetivo substituir o comportamento convencional pelo reflexivo, através de uma mímica corporal conscientemente manipulada.
A conservação da modalidade está registrada em vídeos e filmes.
Nessa década de 60, o advento da arte do corpo coincidiu com um interesse cultural generalizado pelas expressões faciais, gestos e atitudes corporais especialmente entre os psicólogos e semioticistas. Falava-se e estudava-se muito as linguagens não-verbais.

O ARTISTA EM SEU CORPO

Além de sujeito com competência para produzir arte, o artista tem as mesmas necessidades vitais que qualquer mortal- apesar de diferir no que não é vital.
Seu corpo e mente precisam administrar conflitos, frustrações, ansiedades, desejos em torno de fantasias, regressões, racionalizações, compensações, projeções, identificações, fugas, negações e emoções.
Entretanto o artista, por natureza, se insurge contra o préestabelecido numa dificuldade de adaptação às regras impostas. Por isso, por esta rebeldia inata, essa insubordinação, sua curiosidade é altamente desenvolvida bem como sua capacidade investigatória.
Está no mundo, com seu corpo e sua mente, com suas paixões sexuais e intelectuais. À primeira ele quer exclusividade, à segunda, adesões. E expressa com liberdade, através das linguagens que elege, o seu desejo.
Cria-se assim uma outra realidade: mescla da realidade psíquica com a realidade externa.

CORPO E ESTÉTICA

Falar do corpo é falar de estética. Estética encontrada na História da Arte, nos exemplares dos nus que privilegiam a cada época características diferentes. (Como exemplo temos as gordinhas de Renoir). Estética contemporânea que aprisiona o comportamento principalmente em busca de um padrão dito de beleza e que mais serve ao mercado que à qualidade de vida.
Estética esta introjetada em nosso subconsciente sem permissão e que involuntariamente rege nosso juízo diante das coisas. Juízo que reprime o livre trânsito e o livre uso do corpo para as boas coisas da vida.

A CONSCIÊNCIA DO CORPO

Nosso contato com a realidade através do corpo está prejudicado. Como se não bastasse essa condição humana, que desde o nascimento impossibilita a concretização do prazer pleno, o corpo pouco a pouco se engessa ainda mais.
Exigido naquilo que menos importa ( a perseguição do padrão), aprenderá à duras penas, a compartilhar com os códigos impostos pela realidade da cultura e a se adaptar a eles como forma de possibilitar a convivência social.
Isso gera a diminuição de suas capacidades.

Quanto mais adaptados, menos curiosos ficamos, menos capazes de ações investigatórias e mais propensos à subordinação das regras dos sistemas sociais.

Esse corpo, habitat de nosso psiquismos, aprende aos poucos a negociar, ceder, adaptar nossa realidade interior, com suas fantasias e imaginação, à realidade externa.

A QUALIDADE NO USO DO CORPO

O artista então se vale do corpo para a produção e captação de efeitos desejados em seu trabalho. A obra então elaborada fica à disposição de quem a quiser fruir. 
Uma questão, de extrema complexidade aparece: a qualidade da relação que estabelecemos com o mundo à nossa volta e que determina as nossas incursões dentro da fruição artística. Isso me remete à várias lembranças. Uma delas se refere a visitas a museus. Tenho extrema antipatia pelos anteparos usados pelos museólogos para afastar o público do acesso às obras de arte. Faixas desenhadas no chão, postes com cordas. Avisos proibindo tocar, fotografar, deixam claro: o corpo está restrito ao sentido da visão: o tato, o olfato, a audição, o paladar, e sei mais o que, devem ser eliminados. O homem só é aceito – dentro dos museus – se castrado em sua capacidade corporal. Tais proibições sempre são por uma boa causa: CONSERVAÇÃO. Do quê? Para quê? Melhor dizer: assim ficará mais difícil não socializar o patrimônio da humanidade. E a dita conservação se volta para objetivos comerciais pesados: a mais valia nas possíveis negociações. Interagir: obra/ público ? Nem pensar.
Como criança, muitas vezes fui chamada a atenção por passar a mão sobre uma textura, uma forma. Por tentar experienciar as sensações das matérias constituintes das obras de arte. E se aprende que o efeito das texturas nas obras de arte são para suscitar sensações tácteis. Para quê?  Desde cedo usei meu corpo, na sua integralidade, para produzir e usufruir da arte e da vida. Tive vários mestre no terreno do conhecimento, mas no terreno da fruição…  Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é abstrato como o instante. É também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo a corpo comigo mesma.

Clarice Lispector em, Água Viva, compõe uma sinfonia sempre renovada. Mostra a relação da personagem com o texto literário, com a pintura, com a música. Uma relação viva: corporal e intelectual.
Considero Água Viva sinônimo deste corpo vibrátil que perseguimos para colorir a vida. Um manual de instruções: de objetivas lições mas efeitos inusitados.

Seu diálogo/monólogo avança em revelações cuja leitura exige disponibilidade do corpo. Como nesta passagem:

Vejo que nunca te disse como escuto música:- apóio de leve a mão na eletrola e a mão vibra espraiando ondas pelo corpo todo: assim ouço a eletricidade da vibração, substrato último no domínio da realidade, e o mundo treme nas minhas mãos.



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