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Cíntia Moscovich | 2010


ARMAZÉM DE MEMÓRIAS

Criativa, ágil, dinâmica, elegante, contemporâ-nea, divertida. São esses apenas alguns dos adjetivos que se podem aplicar à Liana Timm sem receio algum de erro – apenas o receio de as palavras não alcançarem a totalidade do que ela e seu trabalho são de fato e em essência.

Artista multimídia, arquiteta, designer e poeta, autora de 27 livros e mais de uma centena de exposições individuais e coletivas, Liana tornou-se conhecida por ser uma esteta de incansáveis interesses. A incursão por diversos suportes e o uso de diferentes linguagens e técnicas fizeram com que adquirisse aquela sabedoria que vem do experimento, da tentativa, da garatuja antes do traço, e do ensaio antes do ato.

Nesssa antologia que agora vem a público e que reúne uma seleção de poemas  dos volumes Amenas Inferências (1986), Estados Empíricos (1989), Misturas Principais (1992), Arte que te quero Arte (1992) e Trilogia do Indizível (1997), Liana reúne algumas das muitas facetas de seu trabalho como poeta e prosista, gêneros nos quais o verdadeiro laboratório de vida que se impôs mostra seus preciosos resultados. 

Na busca da plena significação, Liana vai ao fun-do das palavras, para descarná-las, desfazê-las, desmontá-las, recompô-las, fazendo-as, de repente, ser alguma coisa a mais que o estado de dicionário proibia.

Nesse desabuso que se aparenta tão bem à poe-sia, Liana dialoga com a tradição, incorporando-a sem resistência. Nos poemas de Amenas Infe-rências, por exemplo, há o emprego tradicional do verso, torcendo-o a seguir para alcançar novas representações. São belos achados, sutis induções que causam grande impacto.

Poeta da contradição, Liana envereda pela prosa poética, com foco na sensualidade que é capaz de evocar. Com construções tão irônicas como Nascer e morrer é uma questão de desenho, Liana aventura-se pela quebra deliberada da métrica e da linearidade, sem renunciar à simetria.

Em Estados empíricos, a autora dá-se ao direito do lirismo caseiro e familiar. É, poder-se-ia dizer, um álbum de família – de todas as famílias – com todas as belezas e horrores da intimidade. Com imagens claras e solares, a autora nos apresenta construções como A onda branca respinga/ guardassóis e pasma os alvejantes.

Em Trilogia do indizível, Liana brinca com a forma do verso, manipulando-o até que faça sentido ao olhar. 
Aliás, talvez esse seja o livro em que Liana mais apela aos sentidos e à eroticidade de seu leitor, aguçando-o com sabores, aromas, texturas e sons.

Capaz de transfigurar a palavra e as superfícies que tem à mão, Liana justifica, também através da literatura, sua escolha pela arte. Sem jamais ser escapista, confessando sua inquietação e a profunda necessidade de transcendência, consagra a frase que ela própria cunhou: De realidades, o mundo está cheio.
Grande Liana.



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