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Cenários da vida


INTRODUÇÃO

O convite que o GEA me fez, para participar deste LUZES NA CIDADE: A ARQUITETURA DE UM PROJETO HUMANO, faz sentido por diversas razões: primeiro porque já me declarei muitas vezes como uma “urbanóide”, ou seja, um ser que nunca se imaginou vivendo fora de uma cidade. Minhas características pessoais necessitam deste convívio socializado, destas possibilidades de participação, destas oportunidades de usufruir das expressões artísticas através da freqüência a cinemas, teatros, salas de concerto, livrarias, museus e galerias. A cidade para mim é sinônimo de vida, relações humanas, possibilidades. A cidade é meu habitat natural; segundo porque minha formação de arquiteta reforça essa admiração pelo aglomerado urbano, seja este espontâneo ou planejado no que ele tem de funcional e plástico; e terceiro porque é com os componentes das cidades, com seus símbolos e recursos tecnológicos, que construo meu fazer artístico. Ou melhor, eles são o pretexto que elegi para refletir sobre os mistérios da existência e das relações humanas.

A SEDUÇÃO DAS CIDADES

Por vias diretas

Seduz-me sobremaneira a paisagem das cidades. Esta paisagem construída pelos homens e configurada pelas volumetrias, pelos equipamentos de uso, pela vegetação, enfim por este complexo urbano de uso coletivo, mas de impressões individuais. Mas é uma sedução sem nostalgia. Gosto de andar pelas cidades, sentir seus cheiros, sua luminosidade nas várias fases do dia, buscar o melhor ângulo de seu perfil contra o céu, descobrir sua topografia, sua volumetria, seus cheios e vazios, suas cores sempre mutantes, as texturas de suas paredes e muros.

Por vias indiretas

Mas gosto também de percorrer as cidades por vias indiretas; pela teleobservação ou pela Internet. Não me causa nenhuma sensação de perda essa nova possibilidade de relação com as cidades. Paul Virilio em seu livroO espaço crítico tem um discurso parecido com o dos pensadores que se mobilizaram contra o vídeo, decretando a morte do cinema e ele está aí mais vivo do que nunca, mais participante. Meu discurso é na defesa da tecnologia que amplia os horizontes possibilitando novas conquistas. Criando novas perspectivas ao olhar.


O OLHAR

E esta é uma questão fundamental. A qualidade do olhar. Daquilo que se capta com o olhar. 
Daquilo que é possível captar com um olhar desavisado, intuitivo, superficial e natural. 
Daquilo que é possível captar com um olhar ampliado, potencializado ou pela tecnologia ou pelo desenvolvimento da capacidade perceptiva.

Há diferenças no olhar: alguns se contentam com a aparência retiniana das coisas; outros vão além, penetram nos sistemas simbólicos – na profundidade das aparências – e através de associações, analogias, retiram das imagens suas significações mais profundas. Esta postura, possibilita, na reflexão e na transfiguração do óbvio: transformações.

Estas obras aqui em mostra têm muito disso. 
Partiram da observação – a olho nu – de uma série de imagens. Imagens de diferentes naturezas: da história da arte, dos bens de consumo, das cidades, de objetos carregados de afetividade, de coisas da minha história de vida, de registros fotográficos por mim realizados. 
Se desdobraram no uso de uma tecnologia que nos aproxima de um tecido impossível de ser reconhecido a olho nu. Pela ampliação de sua aparência, modificamos a escala de relação artista-obra-público e descobrimos outros universos de significação.

O OLHAR SOBRE AS CIDADES

O olhar sobre as cidades tem também esta dupla conotação. O que há de mais fascinante nas cidades são os contrastes entre a aparência das cidades, dos espaços públicos-coletivos e dos espaços interiores-privados e seus usos diferenciados.

São as fronteiras ultrapassadas quando adentramos os interiores. A dimensão oculta das cidades está na ultrapassagem das portas, nas visões emolduradas pelas janelas, nos dramas, nos mistérios resguardados pelos espaços internos, pela intimidade das paredes. A dimensão oculta das cidades não está na volumetria de suas edificações, está mais além. Nas esquinas, nas praças, nos contornos de um espaço aberto. A cidade, mais que tudo, são os homens, seus corpos e suas almas. Isso se explicita pela paisagem das cidades e por nossas paisagens interiores.

CENÁRIOS DA SOLIDÃO HUMANA

Cenários da Vida é um recorte. Busquei trazer para este momento obras que se movem dentro de temáticas nas quais se presentifica uma realidade humana que não é de agora. Muitos dizem que o homem contemporâneo sofre de “solidão acompanhada”. Sabemos que isso não corresponde à verdade. A solidão humana não é criação da época atual, ou melhor não é criação de época nenhuma. O homem desde que nasce carrega consigo a solidão da existência. O que talvez a cidade permita, mais que qualquer coisa, é dar visibilidade a esta realidade por sua aparência às vezes monumental e muito freqüentemente defasada com a escala humana. Por diluir os homens quase sempre na multidão, eliminando as diferenças entre eles e tratando-os como uma mancha humana.

MEU TRABALHO

Meu trabalho, através de referências culturais descontextualizadas e atualizadas, revitaliza questões sem respostas e instaura incógnitas, enigmas que se movem sob a ótica da ironia, do contraste, de paradoxos, difíceis de serem lincados, pois à primeira vista contraditórios. Como pano de fundo está uma poética fundada em um léxico de imagens preferenciais escolhidas por identificações e pelo prazer que elas proporcionam.
Estas imagens vão, desde objetos e produtos industrializados e presentes em nosso cotidiano, (todos escolhidos pela importância afetiva destes na minha vida), à citação de obras de arte seculares confinadas em museus e, portanto, sem acesso. Diria que este jeito de criar está fundado no jeito de brincar que me foi tão positivo. Recortava e colava coisas que me chamavam a atenção. Hoje, com este mesmo princípio, seleciono o que me satisfaz e faço, produzo, materializo minhas criações num tipo de trabalho que denomino “entrosagens”.

Também diria que algumas obras aqui expostas seguem uma necessidade muito pessoal: ir mais fundo, penetrar mais fundo naquilo que nos oferece a imagem. Desde sempre tive fascinação em tirar da sombra o que não se pode ver. Por isso tenho dedicado meu tempo na vasculha do que está por trás da pele da imagem. Aqui isso se exemplifica nas passagens do exterior para o interior, nas misturas entre elementos de diversas naturezas. Essa questão se alarga na medida em que tem analogia com as relações amorosas. O ato de passagem de um espaço público para um espaço privado simboliza, na relação amorosa, uma forma de entrega. Penetrar na imagem é penetrar num corpo, numa alma. Como penetrar no ambiente de vida de alguém é um ato de extremo simbolismo. Quem concede a alguém penetrar no seu espaço/cenário de vida, concede também a esse alguém a sua intimidade. Não é a toa que se diz que a casa é um retrato de seu dono, fala por si, revela.

A arquitetura hoje tem de certa forma retirado das casas essa potencialidade. Sua interferência trata geralmente as ambiências como autênticos cenários, montados de forma a atender necessidades outras que não as da própria individualidade dos que ali vivem. Desfigura-se assim a riqueza das casas que se caracterizavam pela reunião de um mobiliário e equipamento com história e impõe-se a elas, em nome do “bom gosto” e da busca de status um artificialismo de finalidades dúbias. Fal tando a elas, somente avisos semelhantes aos que encontramos freqüentemente nas praças: não pise na grama.

Por esta razão me parece que o GEA foi feliz ao propor esse Luzes na Cidade: A arquitetura de um projeto humano.
Pouco me importa a teoria, as soluções técnicas perfeitas, a busca de uma estética impecável arquitetônica das ambiências, a representação social das aparências. Isso nada tem de positivo se não comportar em primeiro lugar a preocupação com o humano, com as questões da afetividade, com a simbologia

A arquitetura, antes de técnica, funcionalidade e estética é um projeto humano, coisa que na atualidades os arquitetos parecem ter esquecido. Por esta razão o GEA pode se dar por satisfeito: tocou num problema fundamental de uma área que, muitas vezes esquecendo a psicologia das relações humanas, coloca em primeiro plano o jogo das aparências numa forma de prática profissional que transformou a afetividade dos ambientes de vida em verdadeiros cenários sem vida.

Por isso é preciso, como nunca, desenvolver o olhar, aprender a usar o olhar, pois através dele, chegamos mais perto dos valores da própria vida.

Quando conseguirmos essa façanha poderemos usufruir das revelações do olhar
pois é;

Inacreditável
o que se capta
o que se sente com o olhar
Ele adentra as latitudes
e traga vísceras, sangue, raiz

Permite
sem pensamento
a corrosão do que
até então se fez sentido

Inaceitável às vezes
o que nos confirma
o que nos revela o olhar
as vibrações da coisa olhada
tornada plausível
no contato concreto da carne

Do olhar o desejo
não mais controlável
O desafio no passadiço dos acasos
surpresas futuras
Revelações que o olhar segreda
por caminhos indizíveis



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